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Portugal

Crónicas do Irão

No Irão comecei por dedicar alguns dias à poluída mas gratificante cidade de Teerão. Depois subi a Ghazor Khanpara visitar os castelos da Seita dos Assassinos, seita que atormentou os nossos cruzados medievais. Segui depois para SoltaniyehTakht-Soleiman onde é possível encontrar na extinta cratera de um Vulcão as ruínas de um templo Zoroastra património da humanidade.  Segui depois para o Curdistão, uma experiência humana inigualável, e desci aà cidade de Esfahan, a “pérola do Irão” com as suas praças e pontes fabulosas. Segui para Shiraz para conhecer Persopólis e visitar os túmulos dos poetas e desci a Bander Abas para visitar o forte português na Ilha de Ormuz. Subi depois pelo deserto visitando as cidades de Rayen e a sua cidadela, Kerman e o seu magnífico bazar e  Yazd, uma cidade tão romântica que nela permaneci até regressar a Teerão para apanhar um avião em direcção ao meu próximo destino. 

Nota Importante:  Nas Crónicas do Irão, para não comprometer as pessoas que conheci, optei por alterar nomes, cidades e ordem das conversas relatadas. Apenas publico neste site as fotografias de pessoas desconhecidas e não de nenhum dos intervenientes nos factos relatados. Em tudo o resto não podia ser mais fiel à verdade. 

  •  

    Ana e Anne

    Quando cheguei a Frankfurt , dirigi-me ao Imponente Hotel Marriot. Não porque tenha saudades de um cinco estrelas ou vontade de dizer adeus à civilização ocidental em grande estilo. Dirigi-me ao Marriot, fui direito à recepção, porque é lá que trabalha Anne, uma jovem francesa que divide o apartamento com Ana, uma portuguesa que vive e trabalha em Frankfurt à 9 anos.

    Ana e Anne conheceram-me na net e quiseram, insistiram , em me apoiar nesta aventura oferecendo-me a sua casa em Frankfurt enquanto aguardava confirmação da ligação a Teerão.

    Ambas estavam a trabalhar quando cheguei, e note-se que, mesmo sem me conhecerem de lado nenhum, entregaram-me as chaves de sua casa. São ambas bonitas e encantadoras.

    Ana, a portuguesa, foi por amor que foi para Frankfurt onde se casou, aprendeu a língua e começou a trabalhar. É uma mulher de uma energia contagiante. Divorciou-se uns anos depois mas permaneceu na cidade. Foi ela quem refez e decorou divinalmente toda a sua casa num exercício de criatividade inebriante. Para reduzir despesas aluga um quarto a Anne e a sua sala, decorada com antiguidades que ela própria restaura, pareceu-me ser ponto de passagem obrigatório dos muitos amigos que cultivou por cá.

    Trabalha num dos melhores restaurantes da cidade. Irradia uma beleza morena e luminosa, e no chão do seu quarto estão por pendurar quadros magníficos de um pintor alemão que a conheceu no restaurante  e fez dela a sua musa. Apaixonado, ele tenta devolver-lhe em tela a beleza que ela sem o saber, distribui.

    Mas não é o Pintor que Ana ama. O seu projecto é importar por uns meses um surfista brasileiro que ela conheceu nas ultimas férias. Ela desculpa-se com os seus olhos verdes, mas as fotografias demonstram que o rapaz tem muito mais argumentos. Na verdade, o homem faz o David do Miguel Angelo parecer obeso e desproporcionado s  e questiono-me se a vão deixar passar com ele na Alfandega.

    A conversa com Ana, Anne e Claus ( um amigo alemão que apareceu lá por casa ) foi servida com Riesling e prolongou-se pela madrugada. Ainda tomámos juntos o pequeno-almoço que Ana preparou antes de me acompanhar ao comboio que liga a cidade ao aeroporto. No abraço com que nos despedimos disse-me inesperadamente:

    - Não te esqueças de te apaixonar !

    Muito mais do que um sítio onde dormir, o conforto de ficar numa casa a sério, o que levo daqui foi o entusiasmo de Ana e Anne por esta aventura, o seu gesto solidário, a forma como sem me conhecerem de lado nenhum abençoaram com a sua genuína generosidade o início desta viagem.

    Ninguém pode pedir mais.

    Frankfurt, 7 de Agosto 2008

    Pequeno-almoço oferecido por Ana e Anne

    O Tiro da Dona Guilhermina 

    Por tradição e até conforto, nunca digo a ninguém o meu destino de viagem até lá chegar. È uma mania, mas também uma política eficaz, libertadora e que recomendo. Quando refiro ninguém, significo mesmo Ninguém.

    A D. Guilhermina é a minha mãe, e como mãe que é conhece-me melhor que ninguém. Se a este facto incontornável somarmos que no auge dos seus 67 anos tenta desde à alguns meses convencer o meu Pai a leva-la a fazer um Interrail…, aquilo que vou relatar adquire a justa verosimilhança.

    Antes disso permitam-me partilhar convosco um detalhe elucidativo da personalidade da D. Guilhermina. Quando as escapadelas da saúde a obrigaram ao uso de bengala, não foi pela de punho em madrepérola, herdada de uma tia distante que ela optou. Não. Foi à Sportzone do Colombo e comprou um stick de caminheiro, daqueles em carbono, com punho em cortiça e bico em metal que o João Garcia usa para subir ao Everest.

    Baptizados, casamentos, missas e chás com as amigas, lá está ela pronta a subir a qualquer montanha.

    Mas avancemos para o motivo desta Crónica. Estava eu a jantar com os meus Pais, um jantar de despedida num daqueles restaurantes que funcionam como  extensões das nossas salas de estar, quando a D. Guilhermina me dispara uma obrigação de promessa em como eu não ia para o Iraque!

    Fiquei boquiaberto com o tiro imprevisto e quase certeiro,  que rentinho ao alvo quase me levantou da cadeira. Com a boca seca fiz rápidamente  a exigida promessa, e antes que uma ampliação geográfica me destroça-se o visto que tanta dificuldade tive em obter, consegui mudar o assunto sem simular uma quebra de tensão.

    Não quero imaginar ou atrever-me a escrever a primeira reacção da D.Guilhermina quando recebeu um sms a dizer  “Estou em Teerão! ”…, mas consigo imaginar a segunda:

    - Olha lá Amilcar ( o meu Pai ), o Inter-rail dá pra ir ao Irão ? 

    Hospitalidade Persa 

    Podia ser um personagem de Garcia Marques ou Saramago. Podia ter sido escrito por  Murakami ou Agualusa,  mas é apenas um Iraniano de carne e osso. É professor e um apaixonado da literatura persa . Recebe estrangeiros no seu apartamento em Teerão. Foi o meu caso.

    Cheguei de madrugada a um aeroporto novo, amplo e confuso com os milhares de emigrantes que em Agosto regressam ao Irão para visitar a família. O taxista não falava inglês nem reconhecia os números ocidentais dos contactos que trazia. Foi com a ajuda de M. que encontrei onde dormir.

    De manhã ofereceu-me chá e explicou, para meu espanto, que o alojamento devia ser pago não em reais iranianos mas em histórias. Estas deveriam ser do meu país e inacreditavelmente belas . Quanto melhores as histórias, melhores as contrapartidas. Sem uma boa história não poderia ficar e teria de pagar o alojamento.

     - se me contares a melhor historia de sempre, ofereço-te o que quiseres.

    Foi assim que lhe contei a história mais bela que me lembrei, a de Pedro e Inês. Comovido ofereceu-me a primeira noite, contou-me uma história da mitologia persa e convidou-me para jantar com os seus amigos.

     Durante a tarde, não deixei de tentar lembrar-me das melhores historias para lhe contar e agora que parei para escrever isto percebo a trabalheira que deve ter tido a Sherazade para debitar enredos 1001 noites seguidas. Quanto mais pensava mais desejava  ter o parlapiê da Karen Blixen ( Africa Minha)  que à conta das historias ganhou uns Safaris e uns passeios de avião no Kenia.

    Ao jantar, sob uma noite serena numa quinta a norte de Teerão, a história de Pedro e Inês foi  recontada em Farsi, uma das línguas mais antigas do mundo. Fiquei mais uma noite em casa de M. No momento da despedida, M. não queria mais histórias. Apenas me pediu para lhe escrever a primeira e única que lhe contei. Era demasiado bela para correr o risco de a esquecer.

    Irão, Agosto 2008

    Viagem

    Depois do pôr-do-sol, antes de cair a noite, sigo num táxi envelhecido  que atravessa a estrada escura em velocidade. No rádio toca uma musica estranha e melódica que se dissolve na conversa dos outros passageiros da qual nada percebo.

    A partir da estrada, a  planície  estende-se imperfeita até ás montanhas que nos separam do mar. A janela aberta traz um vento quente  interminável, com um aroma seco e envolvente. Nada me preocupa. O tempo é o meu privilégio. Sinto-me profundamente feliz.

    Irão, Agosto 2008

     Ida ao Cinema

    Quando viajo diverte-me ir ao cinema. Acabei por descobrir que o ritual em torno deste entretenimento popular, desta forma de cultura, é muito diferente de país para país. Mesmo sem perceber o filme, só a experiência vale o bilhete.

    Cartaz de Cinema

    Com tempo por perder e curioso pelo cinema Iraniano, tantas vezes premiado na Europa, comprei um bilhete para a sala mais antiga de Teerão. O senhor da bilheteira mandou logo chamar um rapaz que falava inglês. Expliquei-lhe que não falo Farsi mas que tinha de fazer tempo até às 5 de tarde e que queria ver um filme. Entusiasmados venderam-me um bilhete, e um dos empregados de lanterna acesa, levou-me embaraçosamente pela mão até um lugar livre. A sala era enorme, antiga, e até tinha bastante gente para aquela hora da tarde.

    15 minutos depois, batiam-me nas costas. Era o rapaz que falava Inglês a pedir-me para o acompanhar. Intrigado assim o fiz. Lá fora sou apresentado ao dono do cinema e é me explicado que uma vez que não falo Farsi me querem traduzir o filme. Sou então conduzido ao piso superior. É aberta a sala VIP onde me sentam. O rapaz a meu lado começa então a explicar o filme, adjectivando emoções e contextualizando com as normas no irão. Confirma-se assim que o conceito de hospitalidade é aqui elevado a um nível incomparável. Acho que nunca fui tão bem tratado num cinema.

    Mas há um senão nesta história que tudo tinha para ser perfeita e emblemática: o filme em si. O próprio tradutor se queixou do enredo, principalmente comparando com o do filme anterior que implicava um escandaloso trio amoroso.

    Pensei não escrever nada sobre isto para não estragar a crónica, mas para ser honesto e para saciar os mais curiosos passo a descrever o filme que me calhou: uma iraniana de Teerão queria andar de mota, e acabou por ser tão boa a andar de mota que terminou numa feira a fazer acrobacias no chamado poço da morte ( percebem agora porque estava renitente em contar isto…)

    A família ficou destroçada com a notícia e quando surgiram as primeiras críticas elas foram refutadas porque ela usava o chaddor ( uma espécie de burka iraniana ) debaixo do capacete. A mulher de burka e capacete a fazer acrobacias no poço da morte e o meu tradutor a explicar:

    - this movie is about family !

    Depois percebi. A mãe e o irmão proibiram-na de ir trabalhar. Apesar de pobrezinhos chegaram a deitar fora as frutas e carne que a moça levava para casa por considerarem comprados com dinheiro sujo.

    Eventualmente a família reuniu-se e começou a apoia-la. Não só porque a mãe se comoveu com as acrobacias que a filha era capaz de fazer com uma susuki  caseira… ( um dos melhores momentos do filme), como a rapariga  ensinou o irmão a andar de mota. A coisa correu tão bem que acabaram todos a mudar de casa com as gorjetas que atiravam para o tal poço da morte. Eram  gorjetas merecidas: ela quase fazia o pino em cima de duas rodas.

    Claro que o governo acabou por intervir e mesmo com o véu debaixo do capacete, ela foi proibida de andar de mota. Imaginativa, a nossa heroína  troca a mota por carro do ferro velho, e oferece num chaço azul bebé, mas ainda com o capacete, o happy ending  obrigatório.

    Saí do cinema e de facto, Teerão esta abarrotar de carros, os carros a abarrotar de mulheres e muitas conduzem. Mas nenhuma se atreve a conduzir uma mota. Talvez o filme seja apenas uma alegoria básica que me escapa, talvez o filme seja mesmo afinal sobre a “família”. A minha dúvida é se este tipo de filme é um reflexo da sociedade ou mais uma forma de conter a mesma, promovendo o conformismo como garantia de felicidade.

    Irão, Agosto 2008

    Daniel está a Caminho 

    Daniel  está a caminho. Vem a pé desde a Arménia. Decidiu um ponto de partida e um de chegada e começou a caminhar. É alemão e faz isto à 20 anos. Tudo começou porque um dia tinha de ir de Colónia a Hamburgo e decidiu ir a pé. O “jogo” consiste em não contornar obstáculos: sobe montanhas; atravessa rios, dorme onde o acolhem, sobrevive da sua experiência.

    Aprendeu a estudar os caminhos da serra, a escolher sempre os melhores, a reduzir e equilibrar uma mochila, a viver com muito pouco e preparado para tudo. É um homem robusto e sereno. Sabe vários dialectos que vai aprendendo com os povos que atravessa, já que a pé  a distância aumenta e o tempo prolonga-se.

    Como tenho todo o tempo do mundo, e para conhecer na primeira pessoa esta forma de viajar, juntei-me a Daniel um dia,.  Foi o suficiente para aprender a lidar com os cães pastores na montanha, escolher onde atravessar rios e onde fixar o olhar quando me vi pendurado num penhasco. Estas aventuras insensatas não são o meu género, mas o homem inspira confiança e eu estava por demais curioso.

    Com a roupa rasgada, mas inteirinho ( partir uma perna era uma possibilidade mas não uma opção ) guardo como melhor memória a adrenalina e a concentração a que recorri para vencer os obstáculos um a um.

    As recompensas foram simples: paisagens inimagináveis e não descritas, um copo de água fresca oferecido por um aldeão ou simplesmente uma sombra frondosa na aridez tórrida da montanha.

    Nunca discuti com Daniel qual o ponto de chegada. É o menos relevante. O que o move é estar a caminho e já o fez por todo o Cáucaso, Uzbequistão, Tajiquistão, Paquistão e China. Cada caminhada ocupa-lhe três meses do ano e trabalha os restantes. Apercebo-me  que leu Fernando pessoa. É um homem de uma enorme profundidade intelectual que ilustra com histórias dos cantos mais desconhecidos do Mundo.

    Partimos ambos na mesma manhã, na mesma direcção e pela mesma estrada. Eu num barulhento autocarro dos anos 50, Daniel simplesmente a pé.

    Ghazor Khan, Irão, Agosto 2008

    Trekking in Ghazor Khan

    Curdistão

    O povo Curdo é um povo sem terra. Divide-se essencialmente entre o Iraque, Turquia e Irão. Na Turquia é impossível visitar esta região. No Iraque todos sabemos como os curdos foram cobaias do armamento químico de Saddam e de que é racionalmente impossível visitar este país (além da promessa feitapor mim feita  à D. Guilhermina). Para conhecer os Curdos, sobra a zona ocidental do Irão, junto à cidade de Sanandage. Fiz-me a caminho.

    No Curdistão não há os monumentos ou infra-estruturas de outras regiões do Irão. Se os turistas no resto do país são escassos, aqui são um acontecimento. É uma região muito pobre onde pouco sobra para além de um povo dócil no trato que premeia com incomparável alegria e ternura o simples facto de estarmos presentes.

    As vestes das mulheres são mais coloridas, e os homens usam umas calças espessas e largas que afunilam nos tornozelos e são típicas do seu povo. Quase todos continuam a vestir-se com os trajos tradicionais. O seu primeiro olhar é sempre desconcertante. Retribuo com um sorriso que é consistentemente devolvido com um sorriso ainda maior e mil palavras que desconheço. A progressão nas ruas é lenta, com uma sucessão de pessoas com quem me deixo interagir. Oferecem-me sumos, convidam-me para as suas casas, pedem-me para lhes tirar uma fotografia. Os vestígios do ocidente parecem ser apenas isso: vestígios.

    Perguntam-me várias vezes porque estou aqui e eu respondo invariavelmente: “Para conhecer o Curdistão”. É uma resposta muito simples mas que sinto lhes toca o coração. É também a minha única forma de lhes devolver tanta amabilidade.

    Fascinado decido avançar mais neste território e no dia seguinte pago um lugar num táxi (aqui são partilhados) para Marivan, uma cidade curda junto à fronteira com o Iraque. Aí não sobram dúvidas de estar noutro mundo. A hospitalidade é redobrada ao ponto de me levar à exaustão. Refugio-me num restaurante familiar onde almoço sob o olhar atento dos restantes clientes para ser surpreendido por algo que nunca vi no médio oriente.

    É hora de oração e os carros desaparecem. Homens trazem carpetes e esteiras que estendem nas estradas e que vão sendo ocupadas por uma multidão de homens que vai surgindo de todas as direcções e começa a rezar. Vão se levantando e ajoelhando, cada um a seu tempo,  cumprindo os rituais da oração. Por altifalantes escondidos ecoa a voz de um mullah que prega a uma cidade cujas estradas alcatifadas a convertem em mesquita.

    Para além da voz das preces, impera a calma e o silêncio de uma cidade esquecida. Poeirenta e literalmente encravada em montanhas áridas e pedregosas, Marivan conta com mais de 70 mil habitantes. Percorrer o que sobrava das ruas de uma cidade invadida por uma fé profunda, foi também para mim, espiritualmente impressionante.

    Sanandage, Irão, Agosto 2008

    A Guerra 

    Há  guerras que se prolongam tanto tempo nos noticiários que nos tornamos imunes a elas. A guerra Irão/Iraque é uma lembrança vaga que tenho de algumas décadas atrás. Mas se eu, e provavelmente muitos europeus, já nos esquecemos desta guerra que terminou poucos meses antes do Iraque invadir o Kuwait, não o fizeram os Iraquianos.

    A ela sacrificaram toda uma geração, a  “geração queimada” dizem alguns em voz baixa. A guerra indirectamente impediu qualquer oposição ao cimentar da revolução islâmica. Ainda muito presente nesta sociedade, em todas as cidades se encontra monumentos e extensos cemitérios. Nas ruas e nas casas encontramos fotografias e memoriais aos seus mártires.

    Fui visitar um dos cemitérios. As campas são uniformes com fotografias dos mortos e a bandeira do Irão. Impressiona a jovialidade das faces e o seu número interminável.

    Sem o apoio do ocidente, cujas empresas petrolíferas tinha expulsado recentemente, sem acesso ao armamento disponibilizado a Saddam, o Irão recorreu a argumentos religiosos para motivar a população a continuar a lutar. É importante lembrar que foi o Iraque quem primeiro atacou, aproveitando-se da instabilidade política do país vizinho para aumentar os seus campos petrolíferos.

    Com o desesperar da guerra e movidos por inconsciência, inocência até, dor e fanatismo, muitos jovens de 13 e poucos anos alistaram-se. Muitos, com chaves de plástico à cintura que simbolizavam o acesso ao paraíso, voluntariaram-se para caminhar sobre campos de minas abrindo caminho para os tanques do seu país. Assim martirizados, estas crianças são ainda hoje lembradas e elogiadas. Este auto-infligido crime de guerra é das histórias mais tristes que já conheci e preocupei-me em confirmar e reconfirmar antes de a escrever aqui.

    No cemitério, as mães muitas vezes juntam às fotografias dos filhos pequenas imagens de Khomeni. Pergunto-me se por bênção ou acusação.

    O cemitério está quase deserto. Tento fotografar uma imagem que marque este dia. Uma mulher reza junto a um dos jovens ausentes. Demonstro-lhe que a vou fotografar e permanece impávida. Eu não importo. Fotografo-a e no fim sinto-me mal em apenas seguir caminho. Aproximo-me e com gestos e o pouco que aprendi de Farsi,  tento transmitir-lhe o meu respeito.

    A sua face ilumina-se. Balança, aponta o Corão e os céus e fala comigo. Não a posso entender. Não pela língua mas pela dor. Algumas são inconcebíveis de perceber. Ela toca-me o braço e eu escuto-a. Depois toco-lhe a mão e despeço-me. Deixo-a com o seu filho e com o seu Deus.

    Irão, Agosto 2008

       

  • Sem medo dos "Mouros" !

    Tirando a Padeira de Aljubarrota, a coragem das mulheres portuguesas é muitas vezes esquecida na nossa história. As mulheres que nos contam ou são Santas como a  Rainha D. Isabel  (que tinha o fetiche de esconder pãezinhos na blusa) ou umas doidas como a Leonor Teles (que ao que parece também fazia “milagres”).

    Estava eu a aguardar a abertura de um museu em Teerão quando oiço atrás de mim comentários com sotaque do norte. Viro-me curioso e encontro duas portuguesas, Gaby e Helena, uma loira e outra morena, descontraidíssimas, tapadinhas dos pés à cabeça debaixo dos seus chaddor improvisados.

    Não me recordo sobre o que conferenciavam julgando que ninguém as compreendia, mas recordo sim a sua expressão de espanto quando me dirigi a elas em Português. Foi uma Festa ! Visitámos o museu juntos e fomos depois a um dos poucos locais em Teerão  onde se pode beber um café aguado, mas  mais ou menos decente.

    À três semanas atrás Gaby, que agora vive em Lisboa, e Helena, professora de história no Porto, omitiram e enganaram as famílias ( que as pensam na Argentina… ) e embarcaram para o Irão. Era o seu último dia antes de regressarem a Portugal, e a alegria e entusiasmo como me falaram das suas férias deixaram-me confiante e deserto de sair para o interior do país.

    São mulheres esclarecidas e viajadas como aliás muitas das que conheço. Mas a estas duas somo-lhes uma pitadinha de coragem que lhes confere muito charme.

    Foi  uma hora animada de conversa,  com Gaby a passar-me os detalhes que me poderiam ser úteis na minha viagem e Helena a explicar-me a dimensão histórica da Pérsia. Quando nos despedimos, e entre os olhares gulosos de outros homens, dei dois beijos a cada uma, o equivalente a sexo em grupo no meio do Rossio.

    O mundo parou, recei o apedrejamento, mas não existia  outra forma aceitável de agradecer a estas mulheres  lusitanas  a sua ajuda e  alegria.     

    Teerão, Irão, Agosto 2008

  • Pedras e Poemas

    O que pensar de um povo que peregrina aos túmulos dos seus poetas, que aí se reúne em alegre convívio com as suas famílias. O que pensar de um povo que pede aos que aí permanecem, entre poemas esculpidos na pedra, a sua bênção ?

    Como reagir quando um “peregrino” chega ao tumulo do seu poeta e sob os meus olhos se ajoelha em lágrimas, ou quando nos explicam que basta abrir um livro de poemas para encontrar a resposta às duvidas e anseios que nos ocorrem ? Não é uma alegoria. O livro de poemas de Hafez, o principal poeta persa, partilha com o Corão o coração de todos os iranianos. A beleza dos seus versos,  o insondável das suas palavras são presença constante. Faz parte da tradição abrir à sorte a sua obra e encontrar na poesia as respostas.

    A devoção dos Iranianos a Hafez e aos seus poetas justifica-se na dimensão das sua palavras. Para além de belas, foram elas que constituíram e solidificaram a língua persa, o Farsi, ainda hoje uma das línguas mais antigas do mundo. Foram eles, com rimas e poemas que salvaram para o futuro a cultura persa que assim sobreviveu às inúmeras invasões que a devastaram.

    São poemas de beleza, que cantam o perfume das mulheres, os prazeres da alma e do corpo, os divinos sabores do vinho, a imensidão da natureza. Contam histórias e transmitem valores. Aos poetas os Iranianos devem a sua língua mas também a sua identidade:  salvou-os da diluição no mundo islâmico quando invadidos pelos árabes. Sem que ninguém mo tenha dito, gosto de acreditar que são, conscientemente ou não, uma forma de resistência à ortodoxia.

    Num país onde ainda se apedrejam os pecadores, mulheres e homens acusados de amar fora das convenções, em que as pedras escolhidas têm limite de tamanho para não matar à primeira, a poesia em casa de cada iraniano só pode ser um sinal de esperança.

    Explicaram-me  que as pedras  são distribuídas pelos transeuntes que são assim convidados a cumprir a lei divina. Na entrada do tumulo de Hafez em Shiraz, onde a multidão faz fila para entrar, uma inscrição refere: “este é um local de peregrinação para todos os livres de espírito”.   Pergunto-me quantas pedras destruem um poema e por quanto tempo esta dicotomia.

    Shiraz, Irão, Agosto 2008

     

    Tumulo do Poeta Hafez, Shiraz

  • Ormuz

    Ormuz, a pequena ilha onde está o Forte português, é um monumento à nossa determinação. A dificuldade em  chegar, a hospitalidade com que fui recebido  e a facilidade com que ali é possível recuar no tempo, converteram este dia num dos mais fenomenais que alguma vez vivi emviagem.

    O que me impressionou no nosso Forte, para além da beleza e irrealidade que pairam no calor que o envolve, foi o seu carácter afirmativo. Muito mais do que quaisquer resquícios de colonialismo, Ormuz é um testemunho de vontade, da vontade de  todos nós. 

    Na Ilha não há nada. Não há onde comer ou dormir. Apenas montanhas secas e agrestes como fundo e uma pequena vila de casas térreas e rudimentares que se espalham ao longo da marginal. Aí encontramos uma mercearia, uma oficina para motas, um mercado de peixe ao ar livre. Entre  alguns barcos em terra surgem miúdos que nos observam atentamente. E é tudo.

    Ormuz fica teoricamente a uns 40 minutos de lancha da cidade de Bander-Abas, no sul do Irão, mas é na realidade  uma viagem de 50 anos ou mais. É preciso procurar na enorme cidade portuária, o pontão de onde partem as pequenas embarcações para  a ilha. Sou conduzido a um estrado rudimentar onde múltiplas mulheres de chaddor , carregadas de crianças e malas, aguardam alegremente a partida.

     Já nas lanchas, as mulheres sentam-se na parte de traz. Os homens ficam à proa. Quando finalmente arrancamos, segue-se a elevada velocidade, sempre a direito, ignorando o sentido das ondas. Desafiando a gravidade, o barco sofre enormes pancadas cada vez que reencontra o mar. Avançamos em solavancos brutais que lançam as pessoas, crianças e malas, umas contra as outras. A calma dos restantes passageiros indica-me que tudo é normal.

    Na chegada à ilha, o forte, muito mais intacto do que supunha,  domina o horizonte. É emocionante !

    Ormuz marcou o início e o fim de Afonso de Albuquerque na Índia.  Esta ilha situada  à entrada do estreito do mesmo nome, pertence hoje ao Irão e foi para Afonso simultaneamente a sua primeira e última conquista no Oriente.

    Com ordens de assumir o Vice-reinado das Índias após D. Francisco de Almeida concluir o seu mandato, Afonso de Albuquerque foi enviado pelo Rei  D Manuel I uns anos antes com uma valente armada para assegurar a navegação na costa oriental africana. Sem ordens oficiais, e contra a opinião de muitos dos seus capitães, decidiu-se a conquistar Ormuz, um entreposto comercial de riquezas incalculáveis. Era uma decisão de uma ambição e ousadia desmedidas.

    Com os poucos homens  que detinha  já bastante debilitados por meses de mar e batalhas, conseguiu-o à custa de grande brutalidade mas também de muita inteligência estratégica. Este era o homem que anos mais tarde chegou a considerar desviar o  Nilo para combater o Sultanato do Egipto ou a pensar raptar o corpo do Profeta Maomé para o usar como moeda de troca pela posse da Terra Santa. Foi Afonso quem  fundou Goa, conquistou Malaca e estabeleceu contactos comerciais e diplomáticos com a China. Convenhamos que tanta ambição e resultados em apenas meia dúzia de anos eram demais para muitas almas lusitanas mais comedidas no ter ou alcançar objectivos. Na Corte em Portugal, muitos conspiravam contra ele junto a D. Manuel I. O verdadeiro mérito de Afonso de Albuquerque só lhe foi reconhecido anos depois da sua morte.

    Mas voltemos a Ormuz. Revoltosos, alguns dos capitães de Albuquerque desertaram já depois da Ilha  ter sido submetida e da construção do Forte iniciada. Afonso viu-se obrigado a retirar. Quando se apresentou ao Vice-Rei da Índia que vinha substituir, foi  preso pela ousadia desta sua conquista. Tudo acabou por se resolver, os capitães revoltosos foram recambiados para Lisboa, o homem tomou posse um ano depois e hoje é descrito como um construtor de Impérios.

    Mas Afonso não desistiu de Ormuz. No final do seu vice-reinado,  regressou  e voltou a submeter a cidade. Desta vez os Portugueses vieram para ficar. O forte foi terminado  iniciando-se uma presença de 100 anos descrita como religiosamente tolerante e económicamente fulgurante. É durante esta última conquista que Afonso contrai uma febre de que viria a morrer pouco depois em Goa.

    Hoje em dia, o porto em Ormuz  é pequeno, pelo que a chegada das lanchas é suficiente para causar agitação. Em terra, caminho junto ao mar em direcção ao Forte. Está pouco cuidado mas o seu enquadramento não podia ser mais bonito.

    Talvez por serem temperadas pelo sal do mar e pelos sabores dos trópicos, as mulheres aqui são menos tímidas que no resto do Irão. Fica-lhes bem essa abertura se realizarmos que a seu tempo, este era um dos pontos mais cosmopolitas destes mares. São três miúdas, vendedoras de búzios, que me ensinam o caminho através da vedação e me mostram as muralhas, a capela, o portão, a cisterna. Senti vontade de tocar todas as pedras. Ali entre canhões embrulhados em mar, é fácil imaginar aquele espaço cheio de sonhos, garra e angústias. Homens longe de tudo e de todos a construir um Império. Quantas histórias magníficas foram ali vividas por nós ?

    Com a alma preenchida segui para a vila, curioso pela forma como seria recebido. E que doce foi o acolhimento ! Explico a minha nacionalidade e logo me querem levar de regresso ao Forte. Os pescadores mostram-me o resultado da sua manhã de trabalho e pedem-me para os fotografar. Levam-me às suas casas, onde me oferecem água fresca e de comer. Apresentam-me os filhos e os amigos que aparecem para me conhecer. Antes de regressar, insistem em levar-me  de mota a conhecer o resto da vila.

    As hostilidades que ali cometemos foram à muito esquecidas. Ou talvez os 100 anos que lhes sucederam as tenham apagado. Desconheço se tanta gentileza se deve ao meu país mas penso que não. É gente simples e muito pura, que gentil e amável quer que me sinta bem na sua ilha que poucos ou ninguém visita. Parti com saudades e abraços. Senti  como se tivesse cumprido uma das obrigações da minha Volta ao Mundo, uma de que nem suspeitava.

    De Afonso fica uma famosa frase:  “Quanto às coisas da índia, ela falará por si e por mim” . Aqui ela fala bem alto. Visitar Ormuz é uma espécie de reencontro. Estou convicto de que tudo o que esta ilha testemunha  é o melhor da nossa natureza.

    Irão, Agosto 2008

  • Welcome to Iran !

    Pedi ,  num restaurante que escolhi ao acaso numa praça movimentada de uma cidade secundária,  Kebab e uma limonada. O dono logo me veio cumprimentar, saber quem eu era e de onde vinha. Jantei normalmente trocando com ele algumas palavras em inglês para retribuir a sua gentileza.

    No final peço a conta e a mesma não vem para a mesa. O dono do restaurante chama-me “meu amigo”  e diz-me apenas “ Bem vindo ao Irão ! “

    Insisto sem sucesso. O dono do restaurante, como todos os seu compatriotas, quer apenas que eu saiba que o povo deste país nos recebe de braços abertos.

    Zanjan, Irão, Agosto 2008

  • Persópolis

    O império Persa teve inicio 2500 anos antes de Cristo e foi a seu tempo o maior império sobre a terra. É desta civilização o primeiro código de direitos humanos conhecido, cuja  cópia pode ser encontrada na sede das Nações Unidas em New York, escrito  2000 anos antes da Magna Carta.

    Este documento assinado pelo imperador Cyrus, declara a liberdade étnica e religiosa, impede a escravatura ou opressão, a expropriação pela força ou sem compensação, e o mais extraordinário, nele o imperador  declara que não irá recorrer à guerra para governar.

    Persopólis foi construída de raiz, no centro de um império que se estendia do mediterrâneo ao rio Hindu na Índia, englobando o médio-oriente, o Cáucaso, muitas das ex-republicas soviéticas asiáticas. Era aqui que as nações constituintes prestavam homenagem e tributo. A engenharia e arquitectura, a estrutura e as artes decorativas  utilizadas, traduzem o que de melhor se sabia então em todo o mundo conhecido. São artes e técnicas de todos os cantos, congregados em harmonia  a favor de uma obra comum. É um local magnífico que rivaliza com o Fórum em Roma ou o Vale dos Reis no Egipto.

    Toda a imensidão de palácios e edifícios foi decorada sem motivos religiosos ou bélicos. Aquele era um lugar de paz onde todas as nações e confissões eram recebidas.

    Perto de Persopólis encontramos a Necropólis: túmulos Zoroastras onde eram enterrados os reis Persas. São majestosos, escavados na encosta das montanhas, inseridos numa paisagem deslumbrante. Lembra-me Petra na Jordânia.

    Infelizmente para a humanidade Persopólis foi destruída por um enorme fogo após a conquista por Alexandre o Grande. Ninguém sabe o porquê, mas o facto dele se ter enamorado simultaneamente pelo eunuco favorito do Rei Persa vencido e casado com Roxana, uma mulher vistosa e ciumenta, pode ser a causa.

    Não é a primeira vez que uma discussão doméstica pega fogo ao apartamento. Neste caso, em que os telhados eram em madeira maciça, consigo imaginar que uma fita de Roxana ou os repentes do Eunuco tenham ganho uma dimensão bíblica.

    Alexandre apercebeu-se da superioridade cultural e administrativa da Pérsia e deixou-se “absorver” pela mesma. Obrigou milhares de soldados a seguirem o seu exemplo, e sendo que o Eunuco não dava para todos…, casou-os com moças persas num enorme casamento colectivo (não há registos da noite de núpcias).

    Os Iranianos ainda hoje defendem que os seus invasores nunca verdadeiramente derrotaram a Pérsia. Antes acabam por se submeter à sua superioridade cultural. Em Persópolis, séculos e séculos antes da civilização romana, já existia um sistema de esgotos, correios que permitiam comunicar com os confins do império em poucos dias e uma rudimentar assistência social que pagava os salários aos funcionários públicos na doença e na velhice.

    Este local por si só, pela sua beleza, significado e importância histórica merece uma visita ao Irão . Embora não faltem em Shiraz, a cidade mais próxima, táxis a oferecerem a visita às ruínas, convém procurar um guia especializado. Há muito a conhecer e aprender.

    Persopólis abriu-me o apetite para o conhecimento não só desta grande civilização como de provavelmente muitas outras, que por falta de tempo e por serem menos Pop me escaparam no liceu.

    P.S: esta carência de semanas sem um gin tónico para aplacar a falta de animação, está a subir-me à literatura. Se isto continua assim, o Joaquim só vai poder ler a viagem do Tio quando fizer 18 anos.

    Shiraz, Irão, Agosto 2008

  • Ramadão

    Descobri que vai chegar o Ramadão. É a primeira vez que estou num país muçulmano neste período. Parece que alguns restaurantes continuam a servir comida aos não muçulmanos ( mas é preciso encontra-los ). Muitas lojas permanecerão abertas mas é impossível comer nas ruas.

    Decidi ser “romano em roma” e respeitar os costumes em vez de andar a inventar esquemas para comer às escondidas. Durante os próximos dias, do nascer ao pôr-do-sol não meto nada ao bucho.

    Uma espécie de exercício de disciplina. Depois destas semanas a sobreviver sem um gin tónico, 12 horas diárias sem comer vai ser canja (entenda-se “muito fácil” e não “sopa de galinha”).

    Irão, Setembro 2008

  • Porno ?

    Numa viagem de táxi sou subitamente premiado pelo condutor com um telemóvel. Não era dado, era emprestado. Pede-me para ter atenção ao ecrã  onde de seguida começam a passar fotografias “pornográficas”. Entenda-se por pornografia nada de muito hard-core: mulheres com o cabelo à mostra, uma ou outra em bikini,  um ou outro anúncio a sabonetes ocidentais.

    Esta confidência e partilha do taxista só por si não é relevante. O problema é eu já estar aqui à tanto tempo, rodeado de mulheres tapadinhas,  que fiquei fascinado pelas fotos!

     Isso levou-me  a pensar, com o pouco que entendo da psicologia humana, que por prazer ou por vingança, para compensar em casa os cabelos que não se mostra na rua, debaixo dos “cortinados” deve ser a “amazónia”…

    Irão, Agosto 2008

  • A Dança dos Homens

    Numa sociedade de homens, as mulheres celebram ou em família ou longe de olhos estranhos.  Hoje era dia de festa no Irão. Véspera de um dos feriados religiosos mais importantes, o aniversário do 12º Imam, aquele cujo regresso os Shiitas aguardam para, juntamente com Jesus Cristo, os conduzir ao Paraíso.

    A cidade de Esfahan estava cheia, os hotéis todos completos. As famílias passeiam-se e fotografam-se junto aos inúmeros monumentos. Estendem por todo o lado esteiras onde se reúnem a comer e conversar. Miúdos brincam em correrias. Há energia no ar.

    Ao fim da tarde os comerciantes e muitas pessoas começam a oferecer comida e de beber a quem passa às suas portas. As ruas são decoradas com luzes, música  e bandeiras coloridas. Uma multidão passeia. Riem, cantam, partilham.

    A noite vai avançando e continua a festa. Normalmente aqui de noite tudo encerra e nada se passa. Hoje parece as nossas noites de Santos Populares. Carros e motas, que equilibram famílias inteiras, passam buzinando e cantando. Com o tempo e o anoitecer  as mulheres vão desaparecendo. Restam os homens. Num país onde não há álcool, discotecas, o que seja que se assemelhe a vida nocturna, os homens reúnem-se debaixo de uma ponte ancestral. Aí cantam e dançam entre eles em profusa animação.

    O ritmo é o de centenas de palmas coordenadas e ampliando pelo eco dos arcos da ponte. Impera  a espontaneidade, as gargalhadas, um mar de vozes a cantar e corpos que se revezam em movimentos elaborados e tribais.

    Subitamente, observo a chegada de três polícias, os mesmos que patrulham as ruas assegurando a conformidade dos costumes com a lei islâmica. Tomam lugar no centro e também eles cantam e dançam, estilhaçando a farda e um dia de regras e trabalho.

    - “hoje é um dia especial ! “ explicam-me depois de se assegurarem de que não sou jornalista como a minha máquina fotográfica inicialmente os faz pensar.

    Uma vida em que as mulheres se resumem às que lhes calham em família ou as que partilham entre si na clandestinidade, é um mundo que fica pela metade. Órfãos de feminilidade, celebram sobretudo a esperança, a chegada do prometido paraíso.

    Irão, Agosto 2008


  • Liberdade, Igualdade e Fraternidade

    - Se não fosse por ti não podíamos estar aqui – explica-me Sandra apontando para o namorado e para quem nos rodeia.

    Estamos no topo de uma das montanhas. Acaba de ser noite e bebemos um chá sob lâmpadas coloridas num café ao ar livre. Lá em baixo, acendem-se as muitas luzes da cidade.

    - Como és estrangeiro não nos incomodam. Mas por norma não podemos estar assim juntos pois pode aparecer a polícia e temos problemas.

    Sandra  e Alberto (nomes fictícios) não se tocam. Namoram  à 2 anos. Têm 24 anos e nunca se tocaram. Alberto diz que não se importa porque escolheu Sandra por ela ser uma rapariga séria. O amor, que noutras faixas etárias encontra os seus caminhos clandestinos, nestes meus dois anfitriões permanece um mistério pueril. Quando lhe pergunto, Sandra explica-me porque as raparigas iranianas não têm sexo com os seus namorados:

    - Por medo. Se uma rapariga dorme com um rapaz fica na mão dele. Ele vai sempre querer repetir, mesmo depois de já estarmos casadas, e chantageiam-nos ameaçando contar à nossa família o que aconteceu.

    As consequências dessa denúncia são Violentas. O medo impede o Amor.

    - Eu odeio o Chaddor – referindo-se ao lenço que obrigatoriamente lhe cobre os cabelos – todas nós odiamos, mas a polícia está em todo o lado.

    Sandra refere-se à nova polícia religiosa que vigia os costumes e aconselha nas ruas às pessoas o caminho mais correcto para Deus. 

    - Estamos dependentes dos homens. Eles por lei podem impedir-nos de trabalhar, bastando para isso escrever uma carta à empresa. Precisamos da sua autorização escrita para viajar. Se nos divorciamos perdemos tudo, até os filhos.

    Na verdade, no aeroporto em Teerão um cartaz afirma: “Women Human dignity is achieved by Decency and Purity.”

    Alberto explica-me que o dinheiro é um problema sério:

    - Limitar o sexo ao casamento até fazia sentido se nos pudéssemos casar mais cedo. Mas que  pai seria eu, se o fizesse  antes de concluir o meu curso e de ter o meu trabalho para nos sustentar ?

    Cabe ao clero assegurar que o Islão é adaptado à realidade. Quando pergunto a Alberto se o conceito de essa adaptação, por ser feita por homens, possa por vezes estar errada sem com isso pôr em causa o Islão, responde-me claramente:

    - Isso não pode ser dito.

    Na verdade, após tudo o que tenho apreendido, penso que talvez aí resida o problema deste sistema. A preparação dos elementos do  Clero que chegam a postos de decisão é complexa e demorada. Mais de 25 anos de preparação. Centra-se em temas espirituais e históricos. Inclui por exemplo um extenso conhecimento da literatura medieval árabe. Aceitando em absoluto o Islão, a minha dúvida é se essa preparação será  a mais adequada para as responsabilidades actuais e administrativas que lhes estão incumbidas. O seu poder estende-se do legislativo ao judicial. A nova polícia religiosa reporta-lhes directamente.  As leis reformistas emitidas pelo parlamento são vetadas posteriormente, além de que muitos Mullah (membros do Clero)  são simultaneamente juízes nos tribunais.

     De certa forma o Irão vive um lema que nós portugueses até nos lembramos: Deus, Pátria e Família. Vivem e partilham tudo em família, amam o seu país e a sua história, a religião impera em tudo e toda a parte. Não nos será por isso a nós difícil perceber-lhes as angústias. Revelador é que a Liberdade, Igualdade e Fraternidade  não são valores estranhos a este povo. Acredito até serem  por ele sériamente ambicionados.

    Irão, Agosto 2008

  • A Tarde no Rio

    Quando a tarde começa a terminar, sob os arcos de uma das pontes de Esfahan, homens de todas as idades a caminho de suas casas, professores e estudantes, operários e reformados, empregados de banco e de balcão, aqui passam para a desgarrada e sob a sombra fresca da ponte, cantarem com vozes profundas e trabalhadas poemas ancestrais.

    É poesia cantada sem música que nos preenche a alma com a mesma amplitude do fado. Vejo que se conhecem entre si. Aqui se reúnem com regularidade. Calmamente acolhem-me entre eles. São algumas horas em que partilham poesia. Os mais velhos corrigem os versos mal soletrados pelos mais novos. Com o passar lento das horas, pela sua voz e palavras etéreas, este país absorveu-me.

    Agora vou sempre querer voltar.

    Esfahan, Irão, Agosto 2008

    Esfahancomentarios

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