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Iniciei o meu percurso na Indochina em Bangkok. Os primeiros dias foram entregues aos prazeres da Carne (bifes e hamburgueres) como desforra da imposta abstinência vegetariana das semanas recentes na India. A vigente extrema organização, asseio, delicadeza e sentido estético, completaram a paradoxal tranquilidade destes dias numa metrópole gigantesca.
Foi sobretudo uma oportunidade de organizar os próximos meses de viagem, marcar voos, desfazer-me e substituir bagagem gasta ou já desnecessária. A paralísia da cidade devido à cremação de uma irmã do rei, eliminou a concorrência possível das atracções turísticas a este impulso organizativo.
Segui depois para Chiang Mai, uma cidade fácil no norte do país, repleta de turistas e actividades “radicais”. Trekking, Rafting e passeios de elefante preencheram os meus dias, mas a melhor recordação foi o envolvimento com um ginásio de Muay Thai e a “participação” num combate real. Seguiu-se a descontracção à beira de rio na aldeia de Pai e uma paragem em Chiang Rai para de mota e por mim, ir visitar a tribo das Long Neck. (uma das coisas que aprendi nesta volta ao mundo foi a andar de mota. O facto de não ter carta de motociclos parece não incomodar ninguém ).
Passando a fronteira para o Laos segui directo para Luang Nam Tha de onde parti em verdadeira expedição às tribos do norte. Foi uma das melhores experiências da minha vida. Desci depois pelo Mekong, 2 dias de barco, até à exótica e elegante cidade de Luang Prabang. Daí segui para Vang Vieng onde me diverti fenomenalmente e depois segui em stress para Vientiane para não perder o avião que me levou ao Cambodja para conhecer os magníficos templos de Angkor Wat. Com tempo, pude aventurar-me nos templos mais distantes e imersos na vegetação e fiquei com a certeza que é um local onde vou regressar.
O Desporto é uma parte importante da nossa vida, ou pelo menos devia ser. Na Tailândia o desporto é levado mesmo a sério. É praticado para além das nossas convenções ocidentais, muito além mesmo.
Há ruas inteiras dedicadas ao deporto, praticado por todas as idades e todos os sexos. De alguma forma, e seguindo o mesmo raciocínio, diria que Bangkok é uma cidade olímpica. Quando estive no Rio de Janeiro não faltei a um ensaio para o carnaval da escola de Samba da Bandeira. Em Moscovo, juntei os trocos para assistir a um bailado no Bolshoi. Em bangkok não podia perder uma partida de Ping Pong.
Foi um jovem na rua quem me convidou. Era um tipo simpático que logo me mostrou fotografias de família com as irmãs todas aperaltadas. Eram tantas, que a mãe em vez de lhes dar nomes lhes deu números. “Estes asiáticos são mesmo apegados à família…” pensei eu enquanto o rapaz me começa a falar em jogar Ping Pong com as irmãs. Como já há meses que não vou ao Holmes Place, disse-lhe “Bora Lá!”. Segui o rapaz por uma e outra viela animadas e atravessando uma porta esconsa, subi a um escondido segundo andar.
O rapaz desapareceu e o jogo de Ping Pong já tinha começado. Eu era o único estrangeiro. Todos estavam muito animados e à vontade. Como não me deixavam jogar, confortei-me com um Gin tónico num cantinho entre a irmã 15 e a 32 que logo me deram festinhas nas costas e me tentaram explicar as regras anatomicamente complicadas deste adaptação local do desporto.
Era uma rapariga que jogava e garanto-vos que marcava muitos pontos mesmo sem usar raquete. Enquanto decorria o set, a 15 e a 32 começaram a pedir-me bebidas. Eu disse-lhes que não e expliquei-lhes que sou pobrezinho. Quando as miúdas começaram a chorar copiosamente, uma de cada lado no meu ombro, ao mesmo tempo que me tentava desviar das bolas de Ping Pong que por vingança eram disparadas contra mim, percebi que estava a viver o momento mais fora desta volta ao mundo.
Como as gajas ao meu lado só choravam, perdi o meu direito a explicações pormenorizadas e deixei de ter certezas sobre o que se estava a passar. Penso que depois chegou o intervalo já que entraram umas raparigas a tocar trompetas e a fazer assobiar apitos. Aqui já era eu quem chorava, mas a rir. Depois veio outra mais velhinha jogar aos dardos. Isso mesmo: aos dardos! As primeiras miúdas pousaram os assobios e as cornetas e foram buscar balões cor-de-rosa. A única que não alinhou foi a jogadora de Ping Pong que andava num desatino em cuecas a apanhar a bolas espalhadas pela sala.
Não escapou um balãozinho. Fenomenal ! Há momentos em que o desporto se converte em arte e este foi um deles. E quando pensava que já tinha visto tudo, eis que a jogadora de Ping Pong volta a entrar em cena, não para jogar à bola, mas para exactamente da mesma forma abrir umas garrafas de Coca-Cola !
Por fim, disse adeus à 15 e à 32 e fui pagar a conta: um Balúrdio! O preço do Gin dava para pagar três dias emviagem. Disse que não pagava mas estava frito. A porta do bar fechada e um gordo mafioso aquecia os punhos. Tinha sido apanhado. Bem que o taxista no Irão me avisou para ter cuidado com os desconhecidos... (ler crónicas do Irão). A cara de toda a gente à minha volta era a de quem já viu este filme e sabe que o fim não é bonito.
Ponderei as minhas hipóteses. Tenho o telemóvel e posso chamar a polícia, mas nem sei o número da polícia nem sei onde estou. Vai ser uma chatice. Enquanto engonhava a conversa indiferente às ameaças físicas do gordo, aparece a gaja dos dardos a ameaçar disparar-me para a testa. Pensei para comigo: isto é mais ou menos o que eu paguei àvelhinha reformada que vendia bilhetes à candonga à porta do Bolshoi. E a velhinha nem sequer fazia habilidades.
Paguei lá o que me pediam e baldei-me. Cá fora vejo que o sítio nem sequer está sinalizado pelo que é impossível fazer queixa à polícia. Que se lixe, fica pelo espírito olímpico: afinal eu sabia que o Ping Pong é um desporto radical.
Tailandia, Novembro 2008
Os Lutadores
Regis venceu em 15 minutos. Na verdade venceu antes, venceu no momento em que subiu ao Ringueue de Muay Thai ou Boxe Tailandês.
- Eu luto para vencer o medo. Só subir ao Ringue é uma vitória. – explica-me Regis, um boxeur francês que vive agora na Tailândia.
Conheci Regis num campo de treino de Muay Thai, nos arredores de Chiang Mai, a capital do norte da Tailândia. À uns meses atrás estive num jantar em telheiras em que conheci a presidente da federação portuguesa desta modalidade de luta. É paradoxalmente uma mulher charmosa, assumidamente tia e loira, e que tinha sido recentemente entrevistada pelo jornal Expresso. Esse foi o meu primeiro contacto com esta perigosa arte marcial.
Com a curiosidade que nasceu desse jantar, tirei um tempo da minha volta ao mundo para me inscrever num dia de treino num ginásio local. Fui bem recebido. Como o ginásio ficava fora da cidade, o treinador veio ele próprio buscar-me ao hotel numa motoreta.
Emprestaram-me equipamento. Se nas primeiras horas saltei à corda, corri patéticamente às voltas do ginásio e me empenhei em exercícios de aquecimento imaginativos em cima de um pneu de camião..., ao fim da tarde já estava no ringue a desferir murros e pontapés num voluntarioso instrutor tailandês.
É aqui neste ginásio que Regis treina à meses. É um homem incrivelmente possante, silencioso no seu treino do primeiro ao último momento. Coberto de suor, obedece cegamente ao seu treinador: um homem baixinho, barrigudo e sorridente, que intercala as ordens com piadas de um humor sádico e corrosivo.
Regis pouco ou nada falou durante o seu treino, mas ao jantar sim. O treinador convidou-me para jantar em sua casa e nesse dia jantei com a sua família e com os boxeurs do ginásio que também apareceram.
Regis contou-me que nas primeiras semanas o treinador simplesmente o levava para as montanhas circundantes na mesma motoreta com que me fora buscar à cidade. Mandava-o depois sair da mota e correr todo o caminho de regresso.
As costas de Regis testemunham a sua determinação. Na sua pele ostenta uma tatuagem feita por um famoso mestre em Bangkok com quem treinou à dois anos atrás. A tatuagem é feita sem anestesia e o mestre é conhecido por tatuar o que bem entende, sem conhecimento ou aprovação prévia do combatente.
Como todos os outros, Regis conta-me que então perdeu a consciência e explica-me o significados dos diferentes símbolos que lhe foram tatuados: sorte, protecção, força. Explica-me que está aqui porque só na Tailândia se pode dedicar a 100% a este desporto. Em França não consegue ser Profissional e tem que dividir o seu tempo com um emprego medíocre que lhe pague as contas. Isso impede-o de evoluir para a perfeição à velocidade que deseja.
Regis apareceu no jantar com a sua namorada, também francesa, uma mulher lindíssima, inteligente e bem humorada que decidiu acompanhar Regis no seu sonho. Como ainda não conseguiu encontrar trabalho, vivem os dois do que Regis ganha nas lutas. O valor varia consoante ele consegue ou não ganhar, mas tem vindo a aumentar acompanhando a reputação do lutador. Com 2 a 3 lutas por mês conseguem sobreviver. Convidam-me para os acompanhar na próxima luta e dois dias depois sou parte da equipa restrita que acompanha Regis no ringue de um combate profissional no centro de Chiang Mai.
Uma luta de boxe vista “por dentro”, em que um dos lutadores é alguém que conhecemos e admiramos é uma experiência intensa. Os murros e ferimentos passam a ser também em nós. O adversário de Regis era um tailandês, também enorme e assustadoramente confiante. Regis arrumou-o com dois pontapés no estômago, os mesmos que o vi ensaiar infinitamente no ginásio.
Ao lado de Regis assisti à forma como os fans lhe pediam para serem com ele fotografados, à alegria da sua namorada e à ansiedade que a sua vitória deixou nos outros boxeurs do seu ginásio. Ainda não tínhamos deixado o recinto e já Regis era convidado para um outro combate, dentro de duas semanas, por cinco vezes o valor que tinha ganho neste.
Jantámos ali perto e a vitória foi celebrada com garrafas de Whisky e Vodka numa discoteca da cidade em que Regis diluiu em álcool parte do dinheiro que ganhou numa luta que lhe podia ter custado a vida. Não o condeno. Basta uma lesão, uma comum lesão neste desporto violento que aqui é praticado sem protecções, para que todo o sonho se desmorone. Regis e a namorada não têm emprego, ou casa, ou dinheiro a que voltar em França. Tudo está em jogo naquele ringue. Uma vitória tão decisiva merece ser comemorada.
Há muito de inocente em Regis e muito de Paixão desmedida na sua namorada. Mas admiro-os. São um casal único, um casal a viver um sonho, literalmente a lutar por algo em que acreditam.
Tailândia, Novembro 2008
O Puto Americano
Brian parou de fumar cannabis à umas semanas. Diz-me que quer deixar de fumar mesmo porque agora sente a cabeça mais leve e consegue sonhar. É americano, do Colorado, e percorre sem destino o sudoeste asiático.
Conta-me como exemplo da sua nova identidade que pela primeira vez na vida leu um livro de uma ponta à outra. Calhou ser o Velho e o Mar de Hemingway. E calhou bem. Brian nunca tinha lido Hemingway. Não é difícil imaginar o impacto na sua alma limpa.
Conto-lhe que o velho do livro existiu mesmo, que era possível conhece-lo à alguns anos atraz numa aldeia perto de Havana onde vivi em 2001. O próprio Hemingway apontou este pescador como tendo sido a sua inspiração para o livro que lhe deu o prémio Nobel da Literatura.
Brian explica-me o impacto do livro na sua vida. Usa um exemplo simples: ao tentar subir por um dos muitos rios no norte da Tailândia para chegar a uma referenciada cascata, fracassou. Fracassou duas vezes nas semanas seguintes. Há uma parte do percurso em que as margens se tornam abruptas e escurece demasiado cedo.
Depois de ler o livro, Brian voltou ao rio e voltou a subir. Conta-me que não levou comida ou máquina fotográfica, nada que demorasse a ascenção: apenas os calções e uns ténis. O percurso estava repleto de grupos que desistiam e regressavam. Avisavam-no do anoitecer e desejavam-lhe boa sorte quando lhes anunciava que ia prosseguir. Brian recusou os desejos de boa sorte: "Nada na minha vida vai depender da sorte. Tudo depende de mim"
Com o velho e o mar no pensamento, Brian subiu o rio e alcançou a cascata. Conheci-o dias depois e abordei-o porque me pareceu curioso a forma como tentava empilhar 3 livros na sua relativamente pequena mochila de pano. Um deles era “As Neves do Kilimanjaro” do mesmo autor americano. Foi por aí que começámos a conversa. Tenho a certeza, que tal como eu, depois de o ler, vai começar a planear a sua viagem a África, a sonhar adormecer na Savana ou acordar junto a essa magnífica montanha.
Disse no início desta crónica que Brian andava perdido no sudoeste asiático. Mas enganei-me. Brian sabe exactamente o que pressegue com o seu novo pensamento mais claro e limpo: apenas não se resume a um alinhamento geometricamente lógico de atracções turísticas.
E já não vai sozinho: leva Hemingway consigo.
Tailândia, Novembro 2008
Pai
Esta crónica não é sobre o meu Pai, embora o merece-se: uma das melhores coisas que trago comigo foi o abraço que me deu no aeroporto.
Esta crónica é sobre um local na Tailândia onde ainda se vivem sonhos “impossíveis”. É uma aldeia ainda esquecida do turismo de massas. Chamam-lhe o último reduto dos hippies, que aqui alugam cabanas de bambu para com os filhos passarem enormes temporadas junto ao rio que ladeia a aldeia e que tem o mesmo nome.
Não há muita coisa para fazer em Pai para além de estar. Estar a conversar junto ao rio, estar a viver o pôr do sol, estar a mergulhar numa cascata, estar com o meu amigo Gin num bar de bambu a escutar histórias de viagens ao som de lounge music.
Já é possível alugar motas, fazer rafting, trekking ou massagens no meio da floresta. Mas essa não é a essência da aldeia que permanece fiel ao simplesmente "estar". Já é possível jantar pizzas, mas as pequenas ruas ainda se inundam ao anoitecer de comerciantes que vendem comida saborosamente local. Já é possível escutar Jazz, mas ainda se passa a noite á beira da fogueira ao som de uma guitarra ou de tambores vindos de outros cantos do mundo.
O melhor aqui a fazer é mesmo e simplesmente estar no alpendre da nossa cabana de bambu e escutar o rio a passar. Ler e escrever e apenas parar para cumprimentar os nossos vizinhos, que entretanto conhecemos e que como nós, apenas estão.
À noite, para passar da cabana à aldeia e jantar no mercado, tinha de passar uma ponte de bambu instável e estreita. Simples e elegantemente iluminada por candeeiros de papel, é a mesma ponte que nos devolve à cabana onde adormecemos, sozinhos ou não, mas sempre com o som do rio junto a nós.
Tailândia, Novembro 2008
Um novo caminho
Estava sentado numa pick-up quando o rapaz que me apresentaram como sendo o meu guia, sensivelmente a minha idade, me pergunta se me importo de experimentar um novo percurso.
Estou em Luang Nam Tha, no norte do Laos, onde me inscrevi num trekking às montanhas e tribos vizinhas. Cheguei ontem à noite por sorte, pois ao passar a fronteira vindo da Tailândia encontrei um condutor que se ofereceu para fazer os cerca de 300 km de curvas por menos de 10 euros. Na mesma noite em que cheguei agendei na agência mais próxima e ainda aberta um trekking para o dia seguinte. Esta era a única possibilidade: três dias na selva. Curiosamente, na manhã seguinte, todos os outros inscritos não compareceram. Só estava eu. A agência ofereceu-se para me cobrar apenas o cuto estipulado (o preço diminui com o número de participantes) e eu não me importei de meter férias de outros turistas. Faltava o outro lado da moeda e foi isso que me explicaram no cimo da pick-up.
A agênca tem apenas dois meses e este é um projecto ambicioso de incluir novas tribos e novos percursos. Serei parte desta expedição, o primeiro turista, simultaneamente cobaia e sponsor desta aventura . Voçês que já me leram, sabem que não ia recusar. Só depois me lembrei do perigo das bombas por rebentar (UXO´s) deixados pelos combates entre americanos e comunistas na chamada “guerra secreta”. Saltei por isso da Pick Up, pronto a uma aventura emocionante. E foi mesmo isso que aconteceu.
Em menos de uma hora estava na mais densa floresta com o guia a abrir caminho com um Machete e uma enchada. Por essa altura já me tinha lembrado das bombas e hesitava entre estar perto dele para não me perder na densidade da floresta, ou longe para não ir pelos ares caso a enchada acertasse numa bomba.
Por vezes Mainoi, o guia, pedia-me para o esperar e desaparecia para escavar um caminho alternativo. No silêncio verde da floresta, ali sózinho, sentia uma soberana presença. A luz que conseguia atravessar a copa das árvores apenas me fazia parecer a mim próprio irreal. A vida parecia vigorosa, ancestral, a não querer saber de mim, ou melhor, a apenas e tranquilamente permitir-me estar.
Nesse dia extenuante, eu e Manoi escalámos 7 colinas. Se no topo o calor nos despia, nos vales o frio, a escacez de luz e a humidade, obrigavam-nos a vestir polares e impermeáveis. Nuvens de mosquitos, paredes de lama, pedras soltas e incertas, florestas de canas, mata densa, ruídos, valas e precipícios, tudo foi ultrapassado. Apoiei-me no meu stick de caminheiro e na decisão de me isolar do medo e da ansiedade que só atrapalham nestas situações.
Foram 6 horas em alerta e concentração máximos, a escolher cada ponto para o próximo passo e a medir os riscos dos movimentos seguintes. Finalmente a selva terminou e estávamos num carreiro que descia à primeira tribo.
Estas tribos no norte do Laos vieram já à alguns séculos de países vizinhos constituindo nestes terrenos menos acolhedores as suas comunidades. Ao contrário da Tailândia, onde lhes é ainda negada a nacionalidade e consequente legalidade e liberdade, no Laos o governo conferiu-lhes a integração. São comunidades pobres, raramente com electricidade. Em todas as que visitei, o governo construiu uma escola e uma torneira publica. Não há cuidados médicos dignos ou acessos alcatroados. De tractor ou motorizada é possível chegar em algumas horas à capital de distrito onde iniciei este trecking, mas é oóbvio que muitos nunca se aventuraram tão longe, nem os turistas se aventuram até aqui. O lado bom é que a exploração e o zoo humano decadente em que se converteram as tribos na Tailândia, aqui não acontece.
As pessoas não andam com os trajes tradicionais por obrigação, nem mendigam, nem tentam vender cervejas, charros e artesanato. Aqui as pessoas tentam se aquecer com roupas ocidentais envelhecidas mas mais eficientes. Aqui não nos tentam vender nada: oferecem.
Ao verem-nos descer da montanha, a aldeia parou. Um grupo numeroso juntou-se em silêncio à nossa volta enquanto caminhávamos à procura da casa do chefe da aldeia. Mantenho-me o mais discreto possível, gentil nos gestos. As minhas tentativas de cumprimentar as pessoas são recebidas com timidez. Até um sorriso parece demorar a obter resposta. Apreensivos, atentos mas sobretudo unidos, observam-me em cada detalhe e movimento.
O chefe recebe-nos e oferece-nos alojamento na sua casa. Sigo as instruções de Manoi sobre como devo proceder, as normas sociais a cumprir. Descalço, sou sentado junto à fogueira acesa sobre um estrado de areia na sala comum. Conversa-se. Os vizinhos aparecem a ver-me. Outros aguardam lá fora. Sem poder participar na lenta conversa, faço como os que sentam a meu lado: o chefe da aldeia, o simultaneamente feiticeiro e curandeiro da aldeia e Manoi. Todos os outros estão de pé observando-nos. Aqueço as mãos pois já anoitece e faz muito frio, talvez 1 ou 2 celsius.. A casa está repleta de frinchas e as janelas e portas são mantidas incompreensivelmente abertas.
O guia diz então para nos irmos lavar antes de comer. Vou buscar toalha e sabão e sigo-o para o centro da aldeia onde uma torneira debita água gelada. A mesma massa de observadores acompanha-nos. O guia despe-se e lava-se. Eu acompanho-o depois de me confirmar que não há problema. Senti-me como aqueles russos que saltam para o gelo na noite de ano novo. Uma multidão em silêncio assiste enquanto descontrolo a respiração debaixo da água gelada, mas a minha quase nudez e o meu desagrado desperta inúmeros comentários e quebra as frias distâncias.
De regresso à casa, comemos no chão novamente junto à fogueira. Á “mesa” estão agora também a mulher e o filho mais velho do chefe. A comida é acompanhada por copos e copos e mais copos de aguardente caseira. Mesmo longe, o meu amigo Gin provou ser o melhor companheiro de viagem: não fossem os treinos que ele me tem imposto ou suponho que a “lao lao” (aguardente em questão) me teria subido à cabeça… e a tribo ficava mais 100 anos sem receber estrangeiros.
Mas não. Consegui comportar-me e nem dei sinal quando no final, em jeito de digestivo, me ofereceram cerimoniosamente um copo de água. Bebi-o com a solenidade de um vintage.
Depois do copo de água e de me oferecerem de fumar, informam-me que chegou a hora da massagem. Devido ao efeito do copo de água, ainda perguntei se era Ayurvédica mas não me perceberam. Passo à sala ao lado (gelada). Deitam-me e entram duas matrafonas, todas equipadas com os trajes tradicionais, prontas a demonstrarem-me a sua arte ancestral. Ao meu lado, a mesma multidão de aldeões que ali permaneceu dos pés à cabeça. Quando me começaram a esmurrar as pernas compreendi que afinal sempre existe karma e que ele se estava a desforrar de mim (ver cónicas da India).
Confesso que imaginei a possibilidade de ser comido pela Tribo: "primeiro obrigaram-me ao duche para ficar lavadinho e me tirarem as medidas…, depois engordaram-me com a janta e ensoparam-me com lao lao para dar o gosto…, e agora estas gajas aos murros só para me porem mais tenrinho". Eu sei que isto parece paranóico mas, pelo que tinha visto, toda a assistência não tinha ainda jantado. Mas não, não fui comido. Apenas me afundei no meu saco cama coberto por três cobertores (e mesmo assim cheio de frio).
Na manhã seguinte quando acordei estavam a matar uma galinha. Seria o meu almoço. Toda a aldeia se aquecia em fogos acesos junto das casas. Fui caminhar entre eles, interagir e fotografar. Foi fenomenal! O que senti foi que estava a receber a mais simples e bonita lição desta volta ao mundo. Senti uma imensa e profunda tranquilidade, a plena constatação da simplicidade. Senti que podia ficar ali para sempre ou regressar no dia seguinte a Alcochete.
Nessa manhã, já com a galinha cozinhada, recebi um presente artesanal do chefe da tribo e seguimos caminho para mais um dia de trekking. O caminho era igualmente difícil mas o chefe da aldeia indicou um guia e o seu filho mais velho para nos acompanharem à tribo seguinte. Já sem receio das bombas, pude concentrar-me nas proezas físicas e provar os frutos e plantas que os meus companheiros recolhiam da floresta.
A segunda aldeia era mais rica que a primeira. Já havia electricidade e alguns tinham televisão. Uma rede chinesa permitia o recurso ao telemóvel. A curiosidade pelo meu duche foi mais contida e a interacção menos tímida mas igualmente reconfortante. Não tive direito a massagem, mas em vez de uma galinha mataram um ganso.
É uma tribo que veio do Vietname à 5 séculos. Perguntei ao chefe o que faria com 1 milhão de dólares e disse-me que construía uma estrada para a aldeia. Vivem da agricultura, dos búfalos, porcos, gansos e galinhas que criam. Vivem também das plantas raras e animais que capturam ilegalmente na floresta para vender aos aventureiros chineses que os levam clandestinamente para a china onde são usados na alimentação e confecção de medicamentos.
O terceiro dia de trekking foi o mais fácil, embora a densidade da folhagem me tenha enchido o pescoço e as mãos de bicharada que morde. Caí uma ou duas vezes, já que a mesma folhagem impede que se vejam as valas no caminho, mas cheguei bem.
Nessa noite, já em Luang Nam Tha, jantei com a família de Manoi, o meu guia. Vivemos uma grande aventura juntos e ficámos amigos. Apresenta-me à sua mulher e aos filhos e pede-me ajuda e conselhos para a sua agência. Abro o meu mapa mundo para lhe dizer onde fica Portugal e acabo por lhe contar o mundo inteiro. Explico-lhe que é fundamental aprender a trabalhar com a Internet para poder receber marcações antecipadamente e ir mantendo o contacto com os seus clientes. Combinamos que vai aprender a trabalhar com um computador e diz-me, promete-me orgulhosa e inesperadamente, que quando eu regressar a Portugal já vai ser capaz de me escrever um email para continuarmos a ser amigos.
No final cabe-me a honra de escolher um nome para este novo trekking. A escolha foi óbvia: “The Portuguese Trek” ou o caminho dos portugueses. Afinal, todos os outros tinham desistido.
Laos, Dezembro 2008
Os Fieis
O amanhecer em Dezembro em Luang Praband é uma névoa fria que o sol, que aqui nasce no Mekong, vai dissipando. Mal termina a madrugada, e antes do nascer de mais um dia, os locais saiem à rua com pequenas esteiras que estendem no caminho. Trazem cestos e caixas de verga contendo arroz, bananas, um ou outro chocolate, bolachas. Aguardam sentados no silêncio da hora, aconchegados em casacos de lã que os separam do frio húmido. Serenidade.
Os monges alinhados nos seus robes laranja vivo surgem ao virar da esquina. São grupos de 20 ou 30 e caminham também em silêncio. Transportam no regaço uma taça onde recebem aquilo que será a sua única refeição desse dia. Os monges budistas vivem apenas daquilo que os fieis lhes oferecem. Buda, ele próprio, regressou ao palácio onde tinha sido príncipe para pedir de comer. A sua mulher (Buda foi casado e teve um filho) terá desfalecido ao finalmente rever o seu marido e príncipe a pedir à sua porta (este episódio está magnificamente esculpido nas grutas de Ajanta na India).
Com o "abrandamento" do comunismo, é comum hoje no Laos os jovens rapazes ingressarem num mosteiro alguns meses ou anos. Aqui, vivendo em comunidade, recebem parte da sua educação espiritual e terrena. É com profunda solenidade e respeito que o povo lhes concede de comer. Á medida que as pequenas dádivas vão preenchendo as taças dos jovens monges, também o dia se vai iluminando e o calor descendo sobre os fieis que, serena e diáriamente, reafirmam a sua presença.
Laos, Dezembro 2008
Vang Vieng
No Laos não existe lei ou hospitais decentes. A meio caminho entre Luang Prabang e Vientiane (capital) uma aldeia cresceu em torno de uma dose de loucura e está, acredito, perto de converter-se em mito e meca para uma geração.
A “loucura” consiste em descer um rio numa câmara de ar de um pneu de camião: “Tubing”. Trata-se de um rio verdadeiramente belo entre penhascos graníticos e um verde luxuriante. A água é fresca e o calor forte. Não há currentes demasiado fortes, rápidos ou cascatas, nada que impeça que esta descida seja simplesmente aprazível.
A “loucura” não está portanto no rio, mas nas margens. Aqui abundam bares construídos sobre estacas nos pontos em que o rio é mais profundo. Quase todos oferecem a possibilidade de mergulhar de forma aventureira e original. Em slide, em rapel, em duplo rapel… o que seja. E se isto só por si já é bastante irresponsável num país sem hospitais ou meios de emergência (e bastante conveniente num país sem sistema judicial operante…) apenas agrava a “loucura” que reside, não no rio, não nos saltos, mas em baldes de Gin que custam 50 cêntimos (também há quem escolha Vodka, Rum ou Whisky ).
Quando digo baldes, é mesmo baldes como aqueles com que brincávamos na praia antes de nos chegar a consciência. O rio enche-se assim de uma massa flutuante de ocidentais que costumam começar por umas cervejas e uns saltos no primeiro bar. No segundo ou terceiro já se vai no primeiro balde. Ao segundo balde, nem a água fresca do rio nos vale. É a “loucura” total. Há quem flutue a direito e quem nade para traz. Há pares de 2 e 3 na mesma câmara de ar. Todos já se conhecem quando num dos bares se joga afincadamente e sem regras voleibol numa gigantesca poça de lama.
A calma descida do rio converteu-se numa das festa mais passadas em que já participei. Ao todo, eram 100 a 200 pessoas de uma multitude de países, todos a viajar de forma independente.
Obviamente, a maioria não termina a descida. Os taxistas locais correm os bares ao anoitecer a explorar os embriagados no seu regresso à aldeia. Eu, animado, optei por descer rio abaixo. Noite e profundo silêncio, rio abaixo sem frio apesar da agua gelada e do anoitecer. Até que passou muito tempo e comecei a regressar a mim, e comecei a pensar que, se calhar, já tinha passado a chegada. Sem nada na margem, nem uma luz, a que me dirigir deixei-me ir decidido a confiar que nada de mal me iria acontecer.
Já me imaginava a desaguar no Mekong, e depois no pacífico, quando oiço o motor de um barco. Renitente, lá larguei um vulgar “Help me”. Era um barco esguio e sem fundo, uma espécie de canoa a motor, tão esguia que quase virou quando tentei passar da câmara de ar para o barco. Mas, apesar de não ver nada e da gritaria ininteligível do pescador, não virou. O homem conduziu-me de regresso à aldeia e à chegada dei-lhe o dobro do que me pediu. Não falava inglês, mas acredito que soma ao que ganha o que recebe dos que como eu se deixam ir.
No dia seguinte, lá estava eu na partida com uma câmara de ar numa mão e uma cerveja na outra. Nada de baldes. Em vez disso, um saco impermeável com a máquina fotográfica. Afinal a “miúda”, depois de tantos meses emviagem, também merecia divertir-se.
Laos, Dezembro 2008
O Frade e o Templo
Podia escrever uma crónica profunda sobre Angkor Wat, templos e templos abraçados pela selva em que as árvores nascem dos deuses. Podia descrever aqui a luz e a dimensão poética que nem o crescente número de turistas destrói. Podia descrever a forma voluptuosa como as raízes das árvores se agarram às pedras preciosamente trabalhadas, ou como é possessiva esta união luxuriante, quase carnal, entre a selva, a arte e a fé.
Podia escrever sobre Henry Mouhot´s, o botânico francês a quem é dado o mérito de descobrir esta maravilha do mundo. Mas Não. Vou simplesmente limitar-me a transcrever as palavras de outro português, as do esquecido Frade António de Madalena , o primeiro ocidental a reportar a existência deste local 3 séculos antes do relato de Mouhot´s:
“Demasiado extraordinário para ser descrito em papel e superior a tudo o jamais construído no mundo. Contém toda a arte, decoração e delicadeza possíveis de conceber pelo génio humano”.
Cambodja, Dezembro 2008
Os Filhos de Albuquerque
Hà quem lhes chame os filhos de Albuquerque. Quando ao falar-lhes de Portugal me perguntam pelo Sagres que nunca mais os visitou, percebo que o são mesmo.
Falam comigo em Kristão, uma língua que descobri entender perfeitamente. Curiosamente são eles que não entendem o meu Português., cujas palavras são mais elaboradas com sílabas que aqui são dispensadas.
Sentam-me à sua mesa como um irmão. Estou no alpendre de uma casa na rua principal do “Portuguese Setlement” construído em terras cedidas pelos colonos Ingleses aos pescadores luso-descendentes.
A 3 quilómetros do centro de Malaca, distante da porta de Santiago que ainda hoje assinala a então “indestrutível” fortaleza construída por Albuquerque, longe da Igreija onde S. Francisco Xavier pregou a sua fé antes de partir para o Japão, afastados da enchente de turistas asiáticos que aumenta todos os anos, vivem cerca de 2000 descendentes lusitanos.
São uma comunidade empobrecida, pequena, cuja fé católica parece separá-los cada vez mais da Identidade crescentemente muçulmana da Malásia. A Malásia é um país independente apenas à 50 anos. É na verdade um retalho de minorias étnicas e religiosas, sendo que a mais numerosa é o povo malaio e muçulmano e a economicamente mais poderosa a chinesa. A raça portuguesa dilui-se nas cerca de restantes 11 minorias.
Quando uso o termo “raça” não estou a fazer uso de qualquer termo literário. Aqui os bilhetes de identidade ostentam para além do nome e da nacionalidade, duas outras informações determinantes: a ”raça” e a religião. São informações importantes: há uma quota nas empresas públicas , nos hospitais, na polícia, no exército para os Malaios. Mais grave é o facto da quota estender-se mesmo às vagas na faculdade. E sea minoria chinesa é economicamente poderosa para enviar parte dos seus filhos a estudar em Hong Kong ou nos Estados Unidos, todas as outras minorias competem pelas sobras. Isto inclui os da nossa “raça”, ou melhor, exclui os filhos de Albuquerque do futuro da Malásia.
São muito poucos os turistas que visitam o “Portuguese Setlement”. Embora a herança lusitana tenha sido crucial para a recente conquista à Unesco do título de Património da Humanidade, desde à umas semanas o autocarro turístico que percorre em contínuo os pontos relevantes da cidade deixou de incluir a “Aldeia Portuguesa”. As centenas de turistas que recorrem a este meio para conhecer Malaca ( custa apenas 1 euro) deixaram por isso de “nos” visitar, de consumir nos “nossos” restaurantes ou comprar nas “nossas” lojas. Deixaram sobretudo de saber que há uma “raça” de gente que se manteve fiel nas palavras e na fé aos seus antepassados por quase 500 anos.
Aqui, como em Alcochete, celebram-se as festas de São Pedro, padroeiro dos pescadores. Há uma irmandade de homens da aldeia que assegura as festas e as procissões religiosas. O Natal e a Páscoa são um assunto sério, e o grupo cultural, que nunca esteve em Portugal, dança o malhão e a Tia Anica.
Mas estão sozinhos. Senti-os sozinhos. Não existe embaixada portuguesa na Malásia. Não abem quem é a Mariza e nunca escutaram um fado ao vivo.
Na Malásia, a procura de uma identidade nacional mais forte parece não estará a assentar na valorização da sua multiculturalidade endógena mas na cómoda e perigosa procura de hegemonia étnica e religiosa.
A praça principal da aldeia portuguesa ostenta agora um hotel que a separa da praia e do mar de onde chegaram. O Hotel chama-se “Hotel Lisbon”. Foi aceite pela raça portuguesa com a promessa de empregos e turistas. O Hotel Lisboa, depois de construído, é afinal um hotel “Halal”, ou seja, oferece a garantia aos muçulmanos mais ortodoxos que toda a comida e procedimentos são efectuados de acordo com as mais rigorosas prescrições do Corão. Os turistas que aqui chegam não consomem o que seja fora do Hotel. Os da nossa raça, sendo católicos, não têm nele qualquer oportunidade de emprego.
Não é a primeira vez que o Portugueses são traídos em Malaca. Quando o capitão Sequeira aqui chegou, veio por bem e para comerciar. Foram inicialmente bem recebidos e dias depois atacados à traição. Os portugueses que não foram mortos ou cativos fugiram para Goa. Albuquerque regressou um ano depois com uma poderosa armada para libertar os portugueses prisioneiros e conquistar Malaca para os seguintes 131 anos.
Albuquerque, que aqui é descrito como um bárbaro assassino, promoveu a mesma politica de casamentos que ensaiou em Goa (Crónicas da India). Estes são os seus filhos.
O último português a trabalhar com esta comunidade foi o padre Augusto Sendim. Chegou a improvisar aulas de português para os seus paroquianos e promovia o grupo de danças “ Tropa de Malaca”. O padre já faleceu. Não há mais aulas de Português mas a Tropa de Malaca continua a tradição que passou de pais para filhos:
- Foi lá que conheci a minha mulher – explica-me Geraldo rodeado pelos filhos. Um deles, que veste uma camisola do Ronaldo, diz-me – eu também faço parte !
Quando me despeço de Geraldo e da sua família é com um abraço, um abraço forte como muitos que só por si já valeram esta volta pelo Mundo. Mas este foi o maior de todos, porque me foi dado Pela minha “raça” e porque, ao me desejar pelo meio um “Bom Natal” em kristão me fez, subitamente, provar um pouco da solidão com que vivem, à pelo menos cinco séculos, os filhos de Albuquerque.
Nandinho
À mais de dez anos praticava Remo de competição. Corria na altura uma piada sobre o Nandinho, um mítico personagem abençoado desmesuradamente na sua masculinidade. Dizia-se que o Nandinho não podia nadar no Douro porque, ou encalhava no fundo ou nadava de costas e batia na ponte.
Nunca mais soube nada do Nandinho. Até chegar a Malaca na Malásia ( Nandinho, nã sei verdadeiramente se és o mesmo mas pareceu-me que sim ). O nandinho, talvez estigmatizado pela ousadia anatómica, fugiu para a África do Sul e abriu uma casa de frangos em Joanesburgo. Ao invez dos outros tugas que derretem os lucros em mercedez em 2ª mão… o Nandinho abriu mais uma casa de frangos. E depois outra. E depois remodelou a imagem, chamou-lhes “Restaurant” e abriu mais um. E outro.
Indiferente à má língua que então já devia correr lá no bairro, o Nandinho abriu mais um restaurante mas desta vez em Londres. Parece que o David Beckman apareceu por lá a jantar mais de uma vez e o Nandinho ficou estabelecido como o melhor “Casual Restaurant” das Ilhas Britânicas. Hoje o Nandinho tem restaurantes nos seguintes países: Austrália, Botswana, Bahrain, Canadá, Chipre, India, Emirados Árabes Unidos, Uganda, Líbano, Malawi, Malásia, Namíbia, Nova Zelândia, Nigéria, Reino Unido, Estados Unidos, Oman, Paquistão, Qatar, África do Sul, Suazilândia e Zimbabwe.
Milhares de pessoas em todo o mundo sentam-se à sua mesa e, enquanto provam os mesmo frangos que compramos na esquina quando não há tempo para fazer o jantar, ficam a saber que existimos. O “escudo” do restaurante, apresentado como símbolo da sua promessa de Qualidade ao cliente, não é mais que um galo de Barcelos. Ao folhear os seus menus aprendemos sobre as origens tugas do Nandinho, lemos ligeiramente sobre a presença dos portugueses em África e de como a palavra “piri-piri” é originalmente Swaíli.
Depois das sobremesas, já na última página, o Nandinho dá um testemunho pessoal:
“How was it for you ?
For some the first time is always the most memorable. But for most ( as experienced Nando´s lovers will tell you) the natural high of nando´s Piri-piri just keeps getting better and better…”
Nandinho: só podes ser tu! Aqui ficam os meus parabéns pela volta que deste ao “assunto” !
Pôr-do-Sol em Kuala Lumpur
Da janela do restaurante vejo lá em baixo mais uma cidade desconhecida e igual a tantas outras. Todos se movimentam em regresso a casa enquanto a luz, já dourada, se extingue.
À minha volta, noutras mesas, algumas pessoas parecem não existir: eu e a minha mesa estática são o único real enquanto tudo circula em meu torno num movimento silencioso, terno e indiferente.
Pago a conta do jantar sem tentar sequer converter e perceber quanto é. Na verdade, já há muito que desisti de tentar perceber o que seja.
Desço à rua para mergulhar também eu nos últimos raios de sol e envolvo-me no fim aparente de mais uma cidade longínqua. As luzes vão se acendendo por toda a parte, até nos automóveis, e enquanto uma massa de gente atarefada me atravessa percebo que não sou eu que estou a a dar a volta ao mundo. Eu apenas parei um momento, e deixo o mundo, no seu eterno e circular movimento, passar inteiro por mim.
Bolachas e cigarros. Um estojo chinês de costura. Balões, lápis de cores e cadernos para a escola. Ainda pensei juntar umas raquetes de Ping Pong e as bolas respectivas mas depois lembrei-me que por estes lados podia ser mal interpretado (Crónicas da Indochina). E optei antes por mais lápis de cores. Tudo embrulhado num pacote de papel e estava pronta a minha oferta para o chefe da Longhouse, casa únicas e longíquas que albergam em uníssono comunidades inteiras na selva de Sarawak. Era que iria viver os próximos dias e por tradição e a educação preparei esta pequena oferta.
Quando cheguei, à primeira vista, pensei que afinal não ia ficar com uma tribo mas com um conjunto de famílias muito pobres. A arquitectura das casas em conjunto, sobre pilares altos de madeira que as protegem dos animais selvagens e das cheias do rio, era exactamente como imaginara. Mas desiludiu-me o facto que todos já se vestem de forma ocidentalizada e qe muitos têm telemóvel. É fácil cairmos na tentação de pensar que fomos enganados, que a autenticidade já se extinguiu. É preciso permanecer mais tempo, observando de forma passiva e resiliente , aceitando e manifestando-nos de forma contida e moderada, para que a dinâmica da comunidade se revele, nos surpreenda e nos ensine.
Com o passar dos dias percebemos que as aparências iludem e de como as mesmas roupas e acessórios foram sim incorporados, mas com com significados bastante distintos dos que lhes atribuímos nas nossas sociedades.São comportamentos e objectos que são agora vividos e utilizados em simultâneo com tradições e utensílios quase megalíticos.
Perceber estes “novos” significados muitas vezes só acontece atravéz de mal-entendidos, e é esses mal-entendidos que uma postura de amigável invisibilidade nos ajuda a superar sem comprometer todo o processo de aprendizagem a que nos propomos. Dou-vos alguns exemplos.
Tal como é cada vez mais comum no ocidente, um jovem Keniak ostenta várias tatuagens, algumas idênticas à de muitos surfistas no Guincho. As tatuagens são uma tradição milenar na sua tribo, mas estes novos “desenhos” são bastante distantes dos que encontramos nos seus pais, mães e avós. Já os locais, bem como os processos e os significados que as exigem são exactamente os mesmos.
A casa onde fiquei era rectangular. A porta dava acesso a sala cujas paredes estão parcamente decoradas com postais, uma fotografia de um irmão já falecido, e cabides para os chapéus de palha que recolhem antes de sair para o rio. Um dos lados da sala está debruadao de cadeiras antigas almofadadas. O chão (onde eu dormia) está coberto por linóleo colorido e uma estante frágil segura a televisão avariada que a mãe decora carinhosamente com um napron de plástico. Oposto à porta que dá para o alpendre comum da Long House, segue um corredor que passa o acesso ao quarto interior onde dorme toda a família, depois um átrio interior onde corre água em contínuo desviada de um riacho a montante, e termina na ampla cozinha onde uma esteira assinala o lugar das refeições. A cozinha tem uma pequena varanda nas traseiras onde guardam três galinhas.
O “átrio” com água corrente é onde se lavam, onde lavam também a roupa e preparam e lavam o peixe que trazem do rio. A um canto, algumas tábuas dão parcial privacidade à casa de banho que se resume a um buraco no chão. O céu aberto é interrompido por cordas onde secam a roupa e o banho é tomado no centro do átrio com um alguidar e um pequeno púcaro. A altura a que estamos do chão e a constante abundância de água corrente fazem com que o local seja aceitável e surpreendentemente asseado. Não há luz eléctrica mas têm um gerador a gasolina que usam às vezes. Cozinha-se a lenha. A única grande vítima é a privacidade, conceito que a minha família anfitriã parece desconhecer de forma quase enternecedora.
Os meus dias consistiam em acordar bem cedo e acompanhar uma das canoas na pesca. Regressávamos para almoçar. De tarde ficava pela Long House, jogando, conversando e fumando o tabaco que eles próprios produzem. Dormi sempre a sesta, já que precisava recuperar o sono que as noites não me ofereciam. Entre os que se deitavam bastante tarde e os que acordam bastante cedo, não sobravam muitas horas de silêncioque também não era absoluto: sendo a Long House toda construída em madeira e alojando quase 400 pessoas, a noite é interrompida com frequência com ruídos que se somam aos da selva.
A vida na Long house onde permaneci, da tribo dos Keniak, é menos comunitária do que pensei. A mesma está dividida em unidades familiares aparentemente independentes. Cada casa alberga os pais, os pais do pai, os filhos e as filhas solteiras bem os filhos casados e as suas mulheres. São sempre as mulheres que se deslocam para a casa/família dos seus maridos.
Dentro de cada família, embora partilhem a mesma casa, cada casal assegura na pesca e na caça o seu próprio sustento. Há quem cultive arroz em campos impossíveis roubados à selva, mas não é a actividade predominante. Os filhos solteiros cooperam com o pai. A mãe é a uníca que permanece em casa todo o dia cuidando de todos os netos em conjunto.
Esta “individualidade” não compromete a solidariedade e união entre a família: apenas está reservada para as necessidades. A Pesca e a Caça são assim efectuadas de forma independente por cada casal. Marido e mulher como uma equipa indissolúvel que partem de madrugada no seu barco em busca do sustento diário. Dormem juntos, trabalham e aventuram-se juntos, comem juntos, enfrentam correntes, cobras e víboras, escorpiões e corcodilos também em conjunto e é também juntos que vão à vila vender aquilo que pescaram e caçaram. Ao fim do dia, sempre a horas tardias, adormecem também juntos na sala comum que serve de quarto a toda a família.
O amor que une estes casais é algo de muito bonito de testemunhar. São maioritáriamente muito jovens, cúmplices e companheiros. Como em toda a Ásia, aqui não há manifestações exteriores de emotividade, não há beijos ou abraços, mas bastou-me ver a forma como eles as ajudam a descer às canoas, como elas lhes passam o café, como se sentam juntos em silêncio e partilham um cigarro para compreender a beleza do amor que ali testemunhei e que reverencio. O mesmo Amor que não encontrei reflectido no mármore branco do TajMahal, nos beijos ensaiados pelos ocidentais para a digital, estava ali, abundante e constante, sublime e inspirador entre as tábuas pobres daquela Long House.
Escondido na humidade opressiva da selva interminável parece estar o segredo de uma vida com amor. Lamento não ter ficado mais tempo para o aprender, mas se me perguntarem a a opinião, penso que a ausência de egoísmo que a sua vida implica é um dos motivos principais da sua felicidade.
O Velho de Singapura
Bolachas e cigarros. Um estojo chinês de costura. Balões, lápis de cores e cadernos para a escola. Ainda pensei juntar umas raquetes de Ping Pong e as bolas respectivas mas depois lembrei-me que por estes lados podia ser mal interpretado (Crónicas da Indochina). E optei antes por mais lápis de cores. Tudo embrulhado num pacote de papel e estava pronta a minha oferta para o chefe da Longhouse, casa únicas e longíquas que albergam em uníssono comunidades inteiras na selva de Sarawak. Era que iria viver os próximos dias e por tradição e a educação preparei esta pequena oferta.
Quando cheguei, à primeira vista, pensei que afinal não ia ficar com uma tribo mas com um conjunto de famílias muito pobres. A arquitectura das casas em conjunto, sobre pilares altos de madeira que as protegem dos animais selvagens e das cheias do rio, era exactamente como imaginara. Mas desiludiu-me o facto que todos já se vestem de forma ocidentalizada e qe muitos têm telemóvel. É fácil cairmos na tentação de pensar que fomos enganados, que a autenticidade já se extinguiu. É preciso permanecer mais tempo, observando de forma passiva e resiliente , aceitando e manifestando-nos de forma contida e moderada, para que a dinâmica da comunidade se revele, nos surpreenda e nos ensine.
Com o passar dos dias percebemos que as aparências iludem e de como as mesmas roupas e acessórios foram sim incorporados, mas com com significados bastante distintos dos que lhes atribuímos nas nossas sociedades.São comportamentos e objectos que são agora vividos e utilizados em simultâneo com tradições e utensílios quase megalíticos.
Perceber estes “novos” significados muitas vezes só acontece atravéz de mal-entendidos, e é esses mal-entendidos que uma postura de amigável invisibilidade nos ajuda a superar sem comprometer todo o processo de aprendizagem a que nos propomos. Dou-vos alguns exemplos.
Tal como é cada vez mais comum no ocidente, um jovem Keniak ostenta várias tatuagens, algumas idênticas à de muitos surfistas no Guincho. As tatuagens são uma tradição milenar na sua tribo, mas estes novos “desenhos” são bastante distantes dos que encontramos nos seus pais, mães e avós. Já os locais, bem como os processos e os significados que as exigem são exactamente os mesmos.
A casa onde fiquei era rectangular. A porta dava acesso a sala cujas paredes estão parcamente decoradas com postais, uma fotografia de um irmão já falecido, e cabides para os chapéus de palha que recolhem antes de sair para o rio. Um dos lados da sala está debruadao de cadeiras antigas almofadadas. O chão (onde eu dormia) está coberto por linóleo colorido e uma estante frágil segura a televisão avariada que a mãe decora carinhosamente com um napron de plástico. Oposto à porta que dá para o alpendre comum da Long House, segue um corredor que passa o acesso ao quarto interior onde dorme toda a família, depois um átrio interior onde corre água em contínuo desviada de um riacho a montante, e termina na ampla cozinha onde uma esteira assinala o lugar das refeições. A cozinha tem uma pequena varanda nas traseiras onde guardam três galinhas.
O “átrio” com água corrente é onde se lavam, onde lavam também a roupa e preparam e lavam o peixe que trazem do rio. A um canto, algumas tábuas dão parcial privacidade à casa de banho que se resume a um buraco no chão. O céu aberto é interrompido por cordas onde secam a roupa e o banho é tomado no centro do átrio com um alguidar e um pequeno púcaro. A altura a que estamos do chão e a constante abundância de água corrente fazem com que o local seja aceitável e surpreendentemente asseado. Não há luz eléctrica mas têm um gerador a gasolina que usam às vezes. Cozinha-se a lenha. A única grande vítima é a privacidade, conceito que a minha família anfitriã parece desconhecer de forma quase enternecedora.
Os meus dias consistiam em acordar bem cedo e acompanhar uma das canoas na pesca. Regressávamos para almoçar. De tarde ficava pela Long House, jogando, conversando e fumando o tabaco que eles próprios produzem. Dormi sempre a sesta, já que precisava recuperar o sono que as noites não me ofereciam. Entre os que se deitavam bastante tarde e os que acordam bastante cedo, não sobravam muitas horas de silêncioque também não era absoluto: sendo a Long House toda construída em madeira e alojando quase 400 pessoas, a noite é interrompida com frequência com ruídos que se somam aos da selva.
A vida na Long house onde permaneci, da tribo dos Keniak, é menos comunitária do que pensei. A mesma está dividida em unidades familiares aparentemente independentes. Cada casa alberga os pais, os pais do pai, os filhos e as filhas solteiras bem os filhos casados e as suas mulheres. São sempre as mulheres que se deslocam para a casa/família dos seus maridos.
Dentro de cada família, embora partilhem a mesma casa, cada casal assegura na pesca e na caça o seu próprio sustento. Há quem cultive arroz em campos impossíveis roubados à selva, mas não é a actividade predominante. Os filhos solteiros cooperam com o pai. A mãe é a uníca que permanece em casa todo o dia cuidando de todos os netos em conjunto.
Esta “individualidade” não compromete a solidariedade e união entre a família: apenas está reservada para as necessidades. A Pesca e a Caça são assim efectuadas de forma independente por cada casal. Marido e mulher como uma equipa indissolúvel que partem de madrugada no seu barco em busca do sustento diário. Dormem juntos, trabalham e aventuram-se juntos, comem juntos, enfrentam correntes, cobras e víboras, escorpiões e corcodilos também em conjunto e é também juntos que vão à vila vender aquilo que pescaram e caçaram. Ao fim do dia, sempre a horas tardias, adormecem também juntos na sala comum que serve de quarto a toda a família.
O amor que une estes casais é algo de muito bonito de testemunhar. São maioritáriamente muito jovens, cúmplices e companheiros. Como em toda a Ásia, aqui não há manifestações exteriores de emotividade, não há beijos ou abraços, mas bastou-me ver a forma como eles as ajudam a descer às canoas, como elas lhes passam o café, como se sentam juntos em silêncio e partilham um cigarro para compreender a beleza do amor que ali testemunhei e que reverencio. O mesmo Amor que não encontrei reflectido no mármore branco do TajMahal, nos beijos ensaiados pelos ocidentais para a digital, estava ali, abundante e constante, sublime e inspirador entre as tábuas pobres daquela Long House.
Escondido na humidade opressiva da selva interminável parece estar o segredo de uma vida com amor. Lamento não ter ficado mais tempo para o aprender, mas se me perguntarem a a opinião, penso que a ausência de egoísmo que a sua vida implica é um dos motivos principais da sua felicidade.
O Velho de Singapura
Fui eu quem primeiro falou com ele. Percebi que me observava do banco de jardim que contornava o passeio incrivelmente limpo de Singapura. Tinha acabado de subir do metro e depois de meses em mundos distantes parecia ter submergido novamente num mundo conhecido, metálico e organizado, limpo e agitadamente eficiente.
A sua presença e a sua observação constante enquanto eu tentava perceber no mapa para que lado ficava o meu hotel levaram-me a escolhe-lo para perguntar onde estava. Num perfeito Inglês, o velho dissertou como um GPS . Explicou-me não só a direcção que devia tomar como falou sobre o Hotel que eu tinha escolhido e outros que ele recomendava.
Resolvi agradecer mas ignorar as suas sugestões. O hotel que tinha seleccionado era afinal exactamente caro como o velho me avisara, mas era seguro e recomendado e por isso não perdi tempo com mais escolhas. Ninguém pode esperar Singapura ser um sítio barato.
Na verdade Singapura é o país mais pobre em recursos naturais de todo o Sudoeste Asiático. Teve no entanto a "sorte" de se manter independente quando os estados vizinhos confluíram na constituição da actual Malásia e parece ter sido até hoje gerida com enorme Visão, que fez desta minúscula e pantanosa ilha uma potência económica mundial só regionalmente superada pelo Japão. Dias depois de viver numa Long House, descubro-me esmagado por arranha céus e os percursos diários na Selva substituídos por passeios lisos e imaculados por onde desfila o perfume de mulheres feitas de Prada. Esqueci o Velho.
Soube-me bem este regresso à modernidade, poder ver os filmes que concorriam aos Oscars deste ano, uma ou outra exposição e concerto, ver-me rodeado de abundância, saúde e beleza.
Curiosamente, na manhã do meu último dia em Singapura, volto a encontrar o mesmo velho no mesmo banco. Explica-me que está sempre ali, que não tem emprego e por isso passa ali os dias. Tem 72 anos e perdeu o emprego aos 65. Mandaram-no para casa. Diz-me que em Singapura não há reforma. Vive numa casa de beneficência mas passa os dias ali, naquele banco.
- Não gosto de velhos – explica-me.
Depois pergunta-me sobre o meu Hotel e o que tenho feito, penso que para se actualizar. A seguir exige os meus planos para aquele dia. Com um saber enciclopédico explica-me no mesmo mapa com que cheguei onde ir e o que ver nas minhas últimas horas no seu país. Diz-me onde e o que comer. Conta-me ainda onde comprar os bilhetes mais baratos para a Malásia, como conseguir os melhores lugares e de onde saiem os autocarros e a que horas.
Digo-lhe para vir comigo, que o convido para passarmos o meu último dia em Singapura juntos. Não aceita. Convido-o então para tomarmos um café no Starbucks ao virar da esquina e não aceita. Aceita apenas que lhe tire uma fotografia e depois dá-me uma morada para a enviar alertando-me que na casa de beneficiência lhe inspeccionam o correio.
Quando o deixei, permanecia no topo das escadas do metro para se certificar que tomava a direcção certa. Por entre mulheres feitas de Prada que desfilam em passeios imaculadamente limpos, foi o velho mais só que encontrei no meu caminho.
O Artista
- Para além e independentemente de todo o conhecimento que tenhas, do que quer que estudes e saibas, tens sempre que aprender uma arte. – explicou-me o taxista referindo-se aos ensinamentos de sua mãe.
É chinês e enquanto me conduz ao aeroporto de Kuching, estabelecemos conversa. Em Sarawak, como em toda a Malásia, é evidente a superioridade económica dos chineses, mas também o seu comparativamente elevado nível intelectual e cultural. São sem dúvida a etnia mais globalmente informada e consciente.
- Nós chineses, passámos muita fome. Sabemos que o segredo está na educação mas isso não impede que os nossos pais insistam em aprendermos também uma arte qualquer.
A clareza do seu discurso, impossível em muitos taxistas europeus, era só por si um argumento incontornável da sua razão.
- Tens sempre que aprender uma arte - prosseguiu - que te permita sobreviver caso percas o emprego ou te vejas de repente a ter que sobreviver num país estrangeiro ou num ambiente hostil. Qualquer uma, qualquer arte que te garanta a sobrevivência.
Logicamente que lhe perguntei qual era a sua arte:
- Eu faço clones de cartões de telemóvel. Não é legal… mas não magoa ninguém.
Mulu
Ainda há sítios no Mundo onde só se chega de avião, normalmente bastante pequeno, já que as pistas rasgadas na selva não permitem muito mais do que isso.
O Parque Natural de Mulu, em Sarawak, é um desses sítios. É também um dos parque naturais mais extraordinários do Mundo e disse por isso adeus às vertigens a aos dólares, abracei-me ao Gin, que é sempre um bom tónico nestas decisões, e fiz-me a caminho.
O que encontrei quando aterrei foi um mundo longínquo e quase impossível, até na forma como permanece desconhecido.
O caminho entre o avião e o “aeroporto” é feito a pé. Logo aí nos apercebemos como as montanhas esmagam o horizonte aglutinando o vento húmido e quente. Recolhida a bagagem, o caminho para o Parque é também feito a pé: no final da estrada vira-se à esquerda, e depois da ponte suspensa, logo no principio da selva, encontramos os edifícios do parque. É possível dormir aqui em alguns quartos individuais ou numa enorme camarata. Um café funciona como restaurante servindo os pequenos-almoços incluídos no alojamento. Vendem comida ligeira durante o dia e, à noite, é aqui que todos se reúnem para jantar, num fabuloso alpendre de madeira rodeado de arvoredo. A conversa entre os hóspedes começa sempre pelas aventuras do dia terminado e os planos para o dia seguinte. Depois prolonga-se noite dentro, já com as luzes apagadas, pelos mais variados pontos do mundo.
Quase todas as actividades requerem a contratação de um guia, o que é exemplarmente fácil e organizado pela direcção do Parque. As possibilidades são múltiplas, entre visitas às tribos que residem no parque, diferentes percursos na selva, cascatas, passeios de barco, ascenção monte Mulu e Espeleologia. Em Mulu encontram-se das grutas maiores do Mundo, verdadeiras catedrais da natureza que podem ser visitadas e exploradas com diferentes graus de aventura e consequente dificuldade.
A mais famosa das grutas é a Deer Cave, onde se concentram 3 milhões de morcegos que quase todos os anoiteceres cobrem o céu de Mulu ao abandonarem a gruta em bandos gigantescos e organizados. É um fenómeno que não ocorre todos os dias, mas que é, asseguro-vos, extasiante para os que têm a sorte de o testemunhar.
Foi exactamente pela Deer Cave que comecei a minha descoberta de Mulu. Esta enorme gruta pode ser percorrida na totalidade e no final, numa abertura muito menor e já do outro lado da montanha encontramos o Paraíso (“Garden of Eden”). É uma expedição de um dia que termina num vale de outra forma isolado do resto da selva e do resto do mundo por enormes montanhas abruptas.
Para chegar a este vale secreto, é preciso caminhar bastante sobre o chão escorregadio da gruta, trepar colunas de pedra, rastejar claustrofóbicamente entre a rocha, atravessar rios e lagos interiores iluminados apenas pelos frontais dos que aqui se aventuram. Não é uma aventura demasiado difícil que requeira formação em espeleologia. Apenas exige esforço físico e muita concentração. Exige também absoluta confiança no nosso guia e vencer a claustrofobia (que me é impossível imaginar que alguém não sinta em idênticas circunstâncias).
O prémio depois de algumas horas de esforço, além da conquista de alguns medos, é um vale belo e intocado justamente designado por Éden ou Paraíso.
Na gruta, como na Selva circundante, o nível das águas pode variar subitamente. Num saco mais ou menos à prova de água, trazia comigo o meu equipamento fotográfico. A maior parte do percurso nos rios e lago subterrâneos consegui fazer com a mochila levantada no topo dos braços, progredindo com cuidado no leito invisível, tentando não tropeçar ou afundar-me.
Foi já no último lago e última travessia que me apercebi que ali não ia dar. O Paraíso estava já à minha frente, mas não tinha forma de atravessar aquele último lago. Foi então que ele chamou por mim: pendurado numa rocha que ladeava o lago pedia-me para lhe passar a mochila.
Tive que regressar ao principio do Lago e tentar aproximar-me dele pela outra margem, junto à parede de rocha onde ele se encontrava. Consegui, e ele, sem perder o equilíbrio, ergueu a mochila em segurança para as rochas Prossegui a nado e, já no Paraíso, enquanto o rapaz descia das rochas, uma voz que não me era estranha, perguntou-me:
- Are you ok ?
Nem o Bikini molhado disfarçava o seu sorriso. Mesmo contra o Sol podia reconhece-la: era a enfermeira holandesa, e o rapaz que me salvara a câmara o seu namorado. Nunca pensei voltar a os encontrar, mas agora parece-me lógico que se o fizesse… teria que ser no Paraíso.
Partilhámos os três esse dia magnífico e durante o jantar que fiz questão de lhes oferecer no grande alpendre de madeira perdido na selva, li-lhes a crónica que lhes escrevi no Jornal de Alcochete. Linda comoveu-se: nunca ninguém lhe tinha explicado o significado do seu nome. Eu por mim, fiquei profundamente feliz por poder manifestar e concretizar a minha gratidão.
Poder agradecer, retribuir um gesto determinante que alguém um dia teve anónima e desinteressadamente para connosco é só por si um privilégio que quase sempre não temos oportunidade de viver. Penso que a melhor forma de conviver com essa gratidão inquieta que fica cá dentro por se manifestar (e que se ignorarmos nos faz cair em vidas egoístas e desérticas) é também nós, anónima e desinteressadamente, ajudarmos quem precisa de nós. Mas esse sublime prazer, que vai secretamente fazendo o mundo um pouco melhor, não exclui, antes sublinha, a realização e alegria de poder dizer um “Obrigado” olhos nos olhos.
E enquanto por brincadeira lhes fui dizendo que depois do episódio do salvamento da minha câmara fotográfica que estou convencido que foram contratados clandestinamente pela D. Guilhermina (Crónicas do Irão) a verdade é que sei que Linda e o namorado são agora parte inseparável da minha história, muito para além desta volta pelo mundo.
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