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Na India comecei pelo Norte. Uma estadia de alguns dias no Templo Dourado em Amritsar foi uma das melhores experiências desta viagem. Desci a Delhi onde me encontrei com Carla, uma amiga de longa data e com quem viajei nas semanas seguintes. Subimos primeiro às cidades sagradas de Rishikesh e Haridwar. Depois descemos a Varanasi, uma cidade mística e impressionante como nenhuma outra. Atravessámos o norte para conhecer o Taj Mahal e depois seguimos para o Rajastão: Jaipur, Pushkar, Bundi, Udaipur. Aí separámos-nos e Carla regressou a Lisboa. Eu segui então para Johdpur, Jaisalmer, Bikaner e o templo dos Ratos. Desci a Janjan para conhecer Ajanta e Ellora, templos que são verdadeiras obras primas escavadas nas encostas das montanhas. Fiz depois um desvio a Bombaim para entrevistar um Maraja para o jornal de Alcochete, e a Pune para me encontrar com um amigo: Jaideep.
Continuei para sul, para visitar as ruínas de Hampi, outro ponto alto. De Hampi segui para Mysore e de Mysore para a deliciosa Cochim onde dormi na casa do Vasco da Gama e de onde parti para conhecer as famosas BackWaters de Kerala. Subi a Calecut para conhecer a praia onde Vasco da Gama desembarcou e continuei para Goa onde dividi o meu tempo entre a cidade de Panjim e a praia de Palolem. Em Goa tive o privilégio de conhecer alguns lusodescendentes e o nosso Consul Geral e acabei sendo entrevistado para a RTP. Na Praia recuperei todas as energias e gastei outras tantas. Reservei os 3 últimos dias na India para Bombaím, uma cidade cosmopolita que me fascinou.
Marquei pela net a primeira noite em Dheli e solicitei ao Hotel um transfer para me ir buscar. Chegava a horas indecentes: 3h30 da manhã.
Findos os trâmites do aeroporto, lá estava um senhor com um cartaz com o meu nome. Após uns 40 minutos de estrada. chegamos ao centro de Dheli. O Condutor pára o táxi, aponta para a escuridão e diz: “o Hotel é ali”.
Olho e apenas vejo um beco sujo de terra batida. Pensei: “ O quê ?!! Nem penses amiguo, não paguei para andar perdido de madrugada em vielas desertas” Respondi-lhe o mais pragmáticamente que me lembrei: “ Could you Bring the Bags? ”. Mais do que um pedido, foi uma ordem e sem sequer esperar pela resposta acrescentei um snob ”thank you” e avancei para o tal beco a abrir a carteira com ar de quem vai escolher uma nota.
Foi o dollar mais bem gasto de sempre. O hotel além de mal sinalizado, ficava uns bons 50 metros de fim-do-mundo mais a diante, após curvas e contracurvas e meia dúzia de vacas a dormir esparramadas no chão sujo de becos mal iluminadas.
Não me vou alargar a descrever as comodidades do reduto onde me alojei…, mas comento que embora já mal me lembre de como se viajava antes de existir a Internet…, era muito menos divertido: agora somos enganados ainda antes de aterrarmos.
Mahatma Ghandi
A história da Independência da Índia é apaixonante. Sempre me interessou desde que li “Os filhos da meia-noite” de Salman Rushdie (recomendo). No centro de todo o processo esteve um homem fenomenal: Mahatma Gandhi, o “Pai da Índia”
Foi ele quem despoletou a independência com a chamada marcha do sal, e foi também o único a falar contra a cisão religiosa da Índia Britânica nos actuais tês estados: Índia, Bangladesh e Paquistão. Milhões de pessoas morreram ou foram desalojadas por causa dessa cisão entre muçulmanos e hindus tão mal gerida pelos ingleses.
Em Deli é possível visitar a casa onde Gandhi viveu os seus últimos dias e onde foi também assassinado. A casa acolhe alguns dos poucos objectos pessoais deste grande homem e alberga fotografias, textos e excertos de jornais bem como uma fascinante exposição multimédia.
Aqui, não foi a bem construída exposição que me impressionou, mas simplesmente as palavras. Conhecia algumas das intervenções políticas de Gandhi mas não tinha a noção da forma fascinante como o seu pensamento se estendeu a tantos outros assuntos. Para lá do mérito de ter vivido os valores que defendia e acreditava, as questões que coloca e as respostas que propõe elevam-nos a pensar mais longe.
Fascinado, o meu passo seguinte foi a livraria do museu, onde apesar do peso na mochila me completei com dois livros para conhecer o pai da nação onde vou viver os próximos meses.
De certa forma, a independência deste enorme país é um argumento irrefutável para a doutrina que defendia sobre poder da não violência. Foi determinante para a conquista da opinião pública internacional o relato de um jornalista americano que testemunhou em inúmeros jornais ocidentais a forma como milhares de seguidores de Ghandi avançaram contra o exército britânico sem oferecer qualquer resistência às coronhadas que os deixava mortos e inertes no chão.
Também absorvente é a forma racional como Ghandi aborda as diferentes religiões e como explica que não pretende fundar um novo movimento, porque não pode existir o conceito de seguidores de si próprio.
Mahatma não é nome próprio, mas um “titulo” dado pelo povo que significa “ Alma Superior”. Defendia que a Verdade é Deus e não o inverso. Afirmou um dia “My Life is my Message”
Nos seus testemunhos encontro todas as repostas que a forma de viver a religião no Irão me levantou. Respostas, todas elas, muito simples. Confesso que fiquei embasbacado com a clareza deste homem, chateado comigo próprio por só agora o conhecer melhor e certo de que é um enorme privilégio para uma nação, uma quase garantia de um bom futuro, ter um Pai assim.
Ghandi afirmou “My Life is my Message”. Mais do que as palavras e as afirmações, talvez seja a nossa vida e o que fazemos dela a nossa única mensagem.
Shut up.
-Não, não há táxis pré-pagos Sir ! – Diz-me ao taxista mais uma vez enquanto eu permaneço resoluto, de malas e bagagens na estação de comboios de Nova Deli sob um enorme placard que diz: Taxis Pré-Pagos.
O homem já quase me suplica para eu aceitar o facto de que não há táxis pré-pagos. Explica-me que posso ir com ele mas com o taxímetro, insiste em querer saber para onde vou, de onde venho.
Eu, que nem uma besta, sorrio, digo “thank you”, não mexo um milímetro e soletro que quero um Taxi pré-pago. A minha irreverência contida parece chamar a atenção de mais alguns taxistas que e explicam que já não há Taxis pré-pagos. Uns transeuntes juntam-se à argumentação. Á vigésima vez que alguém me diz que não há táxis pré-pagos a minha teimosia vacila.
Um velhinho simpático oferece-se para me levar ao novo local dos táxis pré-pagos. Um gesto diria até enternecedor, não fosse a fama das aldrabices da estação de Nova Dheli mundial e eu ter feito os meus trabalhos de casa.
Resolvo sair do meu ponto e dar uma olhadela, sempre com os meus novos amigos, todos preocupados comigo, a dizerem-me que não há táxis pré-pagos. Sem exagerar, já eram uns 9.
Contorno o placard e descubro um guichet. “Bingo!” pensei . Pergunto se há táxis pré-pagos ao funcionário que me diz com todas as letras que não.
Não dou parte fraca, e sem saber o que fazer resolvo voltar ao meu ponto inicial e esperar estoicamente pelos táxis pré-pagos que já acreditava não existirem mas para os quais não tinha ainda imaginado uma alternativa. Tenho tempo, posso esperar e tentar ter uma ideia do que fazer. Este é um daqueles sítios do mundo onde não se apanha um táxi sem ser barbaramente enganado. E eu, legitimamente, não gosto disso. Se é para ser enganado…, que seja só um bocadinho.
Enquanto permaneço na minha teimosia, continuam a passar pessoas que me vêem dizer que não há táxis pré-pagos. Algumas muito simpáticas. Todas dão razão ao taxista que me quer levar pelo taxímetro e ao velhote que me aguarda pacientemente para me levar ao novo local dos táxis pré-pagos.
O tempo passa e começo a perceber a estupidez e irrealidade de agora caírem pessoas do céu que me vêem dizer que não há táxis pré-pagos. Ao todo, incluindo o taxista, Já deviam ir aí numas 15. Testo a minha plateia e digo-lhes: “ You are All so friendly, All so caring for me ! … “
Uma momentânea “faisquinha” de sorriso no olhar de um deles tirou-me as dúvidas. Voltei ao guichet e ordenei ao mesmo funcionário: um táxi pré-pago para Rouhilla. A resposta foi apenas: “São 50 rupias, Sir”. A multidão de aldrabões continuava colada a mim assistindo inocentemente ao filme. Quando entro no táxi ainda vem um palerma pedir dinheiro a dizer que as malas não estavam incluídas.
A minha resposta foi apenas: Shut up.
O táxi arranca e o chauffer pede-me o vale para a viagem. Disse-lhe que só no fim da corrida. Protestou, e a minha resposta foi apenas : Shut up.
Cheguei mais do que a horas e já divertidíssimo com o profissionalismo dos meus aldrabões. Pecaram pelo excesso. Tivessem ficado quietinhos depois da minha primeira ida ao guichet e tinham –me enganado à grande.
O Templo Dourado
Talvez seja a paz das águas do lago sagrado, os reflexos do ouro do templo, as cores dos saris e dos turbantes contra o imaculado do mármore ou os cânticos religiosos que se fazem ouvir em todo o templo, mas para mim o mais determinante para definir este local extraordinário são os sorrisos e a simpatia de todos os que aqui se reúnem em tranquila e amigável oração.
O templo dourado, como é conhecido, fica em Amritsar a 6 h de Deli de comboio. É o centro da religião Sikh, uma religião distinta do Hinduísmo e do Islão, fundada pelo Guru Nanak no século 15. Como os Hindus, os Sikh crêem na reencarnação e no Karma, mas acreditam que a “Iluminação” não pode ser alcançada com o “retirarmo-nos do mundo” mas sim pela pureza dos nossos pensamentos. Esse é o significado das espadas com que se fazem acompanhar: a excisão dos pensamentos impuros e desnecessários.
É uma religião que defende a integração e progressão social dos seus membros, que defende em absoluto a igualdade entre todos (não há sistema de castas) e sem quaisquer ídolos ou deuses. O seu livro sagrado é uma compilação dos ensinamentos do seu fundador e dos seus primeiros nove sucessores e é “cantado” todos os dias no coração do templo dourado. Altifalantes distribuem as palavras e a música por todo o recinto sagrado.
Todos, mesmo todos, são bem-vindos a este local impressionante. O templo oferece diariamente alojamento e alimentação a milhares de peregrinos. Nada é pedido em troca. Quem assim o entender, pode fazer um donativo numa das caixas específicas, ou simplesmente juntar-se às centenas que com o seu trabalho voluntário mantém tudo em perfeito funcionamento.
Quando soube que o templo aceitava estrangeiros, não tive qualquer dúvida onde me dirigir. Na estação de comboios de Amritsar o filme dos taxistas aldrabões repete-se. Opto por um condutor Sikh (identifico-o pelo turbante) confiante que não vai enganar alguém que se dirige ao seu templo mais sagrado. Foi uma boa aposta. O homem não só não me engana como me leva directamente a um dos edifícios onde alojam os “peregrinos”.trata-se de um prédio antigo de vários andares e está repleto de gente. Transbordam dos quartos invadidam com esteiras e camas improvisadas todo o chão disponível. Uma multidão, nos seus trajes coloridos, deitada em comunidade, dorme no quase silêncio do átrio mal iluminado. É uma imagem de outro tempo.
Uma pequena ala foi adaptada para os estrangeiros. Um pé-direito gigantesco, camas velhas de ferro, colchões de 2 cm de espessura, luzes fosforescentes e umas ventoinhas no tecto consistem toda a decoração. Embutidos nas paredes, cacifos em madeira com aros metálicos permitem fechar a cadeado a mochila. Uma casa de banho limpa e com esquentador dá para nos lavarmos com água morna . E é tudo e basta-me.
Tiro os sapatos, cubro a cabeça com um turbante e sigo de imediato para o templo dourado. Iluminado, ele reflecte-se no lago sereno. Está sempre aberto, e há sempre alguém a conversar a ler ou a banhar-se nas águas. Devo ter estado umas duas horas a contemplar tudo aquilo. Foi um momento de enorme paz.
O dia seguinte também o passei todo em torno do lago. A beleza do local, a luz e as cores, vão evoluindo ao longo do dia. Não cansa.
Resolvo confiar nas vacinas e antibióticos que trago comigo, e junto-me aos milhares se sentam para a enorme e até saborosa refeição comunal. Ocupo as horas a fotografar e a conversar com as pessoas. É uma tarefa fácil. O sentimento dominante é a paz e a harmonia. Mostro as fotografias aos fotografados que contentes me divulgam aos amigos. Ao final do dia já circula o boato entre os peregrinos : são as pessoas que me procuram para eu as fotografar.
Permaneci três dias no templo dourado. Saía à cidade para jantar e pouco mais. A beleza e o acolhimento são transcendentes. As horas mornas em torno do lago, em que mulheres cantam, homens se despem e banham no lago, alguns passam em oração, e todos, todos nos sorriem são horas absolutas.
A Fronteira
A Independência da Índia foi uma trapalhada. A palavra mais correcta seria “ Big Mess” já que o império britânico contribuiu em pleno para a confusão. Nós, os portugueses, devíamos nos cultivar um bocadinho mais sobre as aselhices dos outros antes de embarcarmos tão comummente em apreciações negativas de nós próprios.
Assim que ficou claro que a Índia ia ficar independente, começaram os jogos de poder. Saltaram para cena de todos os lados os oportunistas a tentar o seu lugar ao sol, o seu quinhão de poder no novo país. Mais uma vez, a religião foi o argumento manipulado para unir as multidões.
Á semelhança de Israel, foi criado um estado fictício, o Paquistão. Destinado para os muçulmanos, deixava todo o resto da Índia para os Hindus. Argumentam alguns que esta solução foi a partir de certo ponto a única possível para evitar uma guerra civil religiosa. Os perversos limitam-se muitas vezes a semear o mal e a violência: a ignorância, o orgulho e o medo fazem o resto.
Milhões de pessoas foram obrigadas a deixar as suas terras de ambos os lados, e o percurso destes refugiados foi acompanhado por chacinas e perseguições. A Índia e o Paquistão ainda hoje disputam território e vivem à beira da guerra.
Na única fronteira a funcionar entre os dois países, o final do dia é acompanhado diariamente por uma manifestação exagerada de nacionalismo. De ambos os lados acorrem multidões para a cerimónia enquanto os guardas de fronteira simulam agressividade e confronto numa espécie de dança com os seus colegas do país oposto. O diário recolher das bandeiras é sincronizado, musicado e coreografado perante centenas de espectadores que cantam e dançam entre gritos nacionalistas animados.
Aos estrangeiros que aqui se deslocam é oferecido por norma um lugar na tribuna VIP. O espectáculo que se segue é mais do que extremamente divertido. Achei-o até uma espécie de exorcismo. Soldados que dançam uns com os outros perante uma multidão alegre pareceu-me um argumento optimista, um alegre e genuíno sinal de Paz.
Meia Massagem Ayurvedica
Rishikesh é uma das cidades sagradas nas margens do Ganjes, poucos quilómetros após a sua nascente. Num cenário montanhoso e arborizado, ficou famosa quando foi escolhida para retiro espiritual dos Beatles, que aqui junto do seu Guru, escreveram um dos seus álbuns.
Se juntarmos a este pormenor histórico, o clima mais ameno oferecido pelas montanhas, não é de estranhar que aqui abundem adolescentes anorécticas, tias carentes, e todo o género de almas ocidentais meio perdidas à procura da iluminação.
Abunda também o mercantilismo, os falsos gurus, a inflação de preços e princípios versus o resto do semi-continente. Abundam as aulas, retiros e cursos de Yogas, Massagens, Meditações, Trekings e passeios de Rafting. Um supermercado para o Nirvana.
Nos restaurantes, a par da comida indiana, é possível embarcar em hamburguers, french fries e sumos naturais. Aqui o perigo não são as saladas mal lavadas, mas as conversas que chegam da mesa do lado e a que é impossível escapar: todas elas são invariavelmente excessivas e parasitadas por uma superficialidade indigesta.
Mas estou emviagem e aberto a novas experiências. Decido por isso experimentar uma massagem Ayurvédica numa conceituada escola espiritual perto do meu hotel. ,Para quem não sabe, este tipo de massagem recorre a diversos óleos aromáticos Como seria de esperar, sou enganado.
Não gosto de experimentar as coisas pela metade. Paguei por isso a “Full Body Massage” e estranhei, quando a meio da massagem, já os óleos desciam do dorso, a “massagista” amarinha para cima da mesa de sândalo e a massagem ganha novos contornos.
Confesso que não o esperava, mas que após tanta islâmica abstinência, foi difícil resistir. No silêncio e serenidade do guichet de massagens, descubro novos prazeres, insuspeitos para um rapaz já na casa dos trinta. Desde a adolescência que não me sentia assim tão aluno nas artes do amor.
Talvez tenham sido os aromas, a mesa ampla e oleada, a semi-luz contra os barulhos da rua, a musica haré krishna que passava pelo friso da porta ou simplesmente… o estarmos todos besuntados. A verdade, é que mesmo sem Gin Tónico (não se vende álcool nas cidades sagradas) fui feliz naquela mesa de massagens. Já me imagino, quando regressar, a ser conhecido nos supermercados de Alcochete pelos litros semanais de Azeite Galo.
Só não gostei foi de no final me terem cobrado a “Full Body Massage” como se a mesma não tivesse terminado a meio caminho. Ainda pedi 50% desconto e discuti que sem mãos não contava… mas nada. Paguei os três euros, prometi regressar e fui comer um hambúrguer entre bifas enjoadas que procuram, em semanas de meditação, a trancendência que todos trazemos no nosso próprio corpo.
Varanasi
Pouco antes de partir, foi o baptizado do meu sobrinho, o Joaquim, a quem dediquei esta aventura. No Irão, como em todos os países muçulmanos, o início das orações é precedido pelo lavar de mãos e pés na entrada das mesquitas. Na India, as gotas fontes e lagos dão lugar a gigantescos rios, que nascendo em glaciares nos Himalaias se desdobram em cidades sagradas, oferecendo aos que nelas se banham, aos que submergem os seus corpos nas correntes fortes e frias, a mesma fé e pureza com que baptizamos os nossos filhos.
Em Haridwar, nas margens do Ganges no norte da India, encontrei centenas de famílias que aí se deslocam em peregrinação , e aí mergulham diáriamente, e que acreditam conseguir com as suas preces e oferendas de flores e incenso ao pôr-do-sol a acalmia do rio que se verifica durante a noite. O mais fenomenal, o verdadeiramente extraordinário. é a jovialidade e alegria com que todos se banham, numa contagiante festa feita de abraços, mergulhos, chapinares e brincadeiras.
O rio no entanto não pára, vai ganhando forma e volume e chega a Varanasi. Aí espera-o uma cidade envelhecida e irreal, em que ruas imundas e casas apinhadas, romanticamente descoloridas, nele se debruçam.
Este é o local sagrado para morrer. As cerimónias e os comportamentos afastam-se dos de Haridwar. Aqui lavam-se e crema-se os corpos dos mortos. Nas vielas somos obrigados a afastar-nos dos cadáveres que passam em procissão. Cheira a Incenso e a madeira queimada. Prevalecem nas margens decadentes da cidade os homens santos, os peregrinos, os doentes. A água está agora nitidamente suja, mas todos nela se banham e dela bebem. A Alegria das famílias de Haridwar dá lugar a cerimoniosa oração. A força da corrente fria do rio dá lugar a um passar mais brando, morno e térreo. Frente ao rio enorme, na outra margem, o vazio contribui para a espiritualidade da experiência. Nada existe na outra margem.
Para mim, é uma das cidades mais fabulosas do mundo, que nos ensopa a alma de irrealidade. Estamos noutro espaço e noutro tempo e é fácil aceitar que tantos acreditem no sagrado daquelas águas, no determinante que será nelas mergulhar, na bênção que representa ter as nossas cinzas aqui dissolvidas para o Sempre.
Quaisquer que sejam as vielas confusas percorridas, terminamos sempre junto ao rio, ladeados pelos que acreditam e rezam. Olhamos em frente e vemos o rio, e um mar de luz e mais nada. O mundo real termina, concluem-se todas as dimensões que conhecemos. Os que ao nosso lado avançam os últimos passos para a água que a nossa sensatez nos impede, levam-nos com eles para um outro mundo desconhecido.
Aqui, nesta margem, estou na fronteira de tudo o que conheço e compreendo.
India, Setembro2008
Taj Mahal
O Taj Mahal, o monumento ao Amor, foi mais uma experiência curiosa que avassaladora. Esta maravilha do mundo que constituiu um dos alicerces para incluir a India na minha volta ao mundo está de facto no extremo do Belo. O monumento em si, as pedras, em nada faltaram ao prometido. O problema foram os outros visitantes. Ou talvez tenha sido eu, para quem o Taj Mahal é muito mais do que pedras, mas o mais belo monumento construído por amor, sentimento que queria fotografar.
Sem que esteja por agora apaixonado, o Amor tem passado em diversas ocasiões pela minha vida. Se embora nem sempre o tenha feito de uma forma fácil, ele tem sido sempre impulsionante. O Amor é por isso um sentimento profundo que acarinho, que sempre que me aconteceu foi inebriante e revelador. É um sentimento que desejo a todos os que conheço, e que venero como algo raramente eterno mas sempre insuperável. É óptimo Amar.
Perturbou-me por isso o arraial que se instala no Taj Mahal com o desfile de grupos de turistas. Não se tratou tanto da quantidade mas da ignorância. Agora que escrevo isto pergunto-me se o monumento, tal como o sentimento a que se dedica, não será um privilégio dos inteligentes.
Desde cedo, dezenas e dezenas de pessoas em fila para tirarem fotos iguais, como a de sentados no famoso banco em que, só e triste, a Lady Di planeou provavelmente as futuras aulas de equitação.
Há também quem faça acrobacias para, em montagem fotográfica e sobreposição de planos, parecer que suspendem o Taj Mahal na palma das mãos, pendurado pelos dedos, entre as pernas… etc. São centenas que se degladiam para esta palhaçada enquanto olham no relógio os minutos que faltam para regressar ao autocarro. Berram aos outros quando conseguem furar a multidão para apanhar a vista no ecrã da digital. Um arraial parolo de que não me soube isolar.
Há inúmeros casais no Taj Mahal mas não encontrei ninguém apaixonado. Nas horas que por ali permaneci, não vi um único beijo, um único gesto que denuncia-se o amor que se justifica neste local. Nada. Apenas abracinhos stressados a pensar no próximo ângulo e sob o olhar impaciente de todas as outras pessoas que aguardavam a sua vez pela exacta mesma foto.
A partir das 8h30, quando redobrou a enchente dos grupos, já não consegui fotografar. Estava esvaziado de inspiração, sem cores humanas para sobrepor ao branco estéril do mármore. Decidi seguir viagem. Cá fora, na rua, trabalhadores restauravam os muros do recinto. Saco da máquina e faço, para mim, uma das minhas melhores fotos da India. Estava de regresso à autenticidade.
Já no comboio para o Rajastão apercebo-me que a única fotografia de Amor que consegui no Taj Mahal foi a de um Amor menos comum mas tão revelador e impulsionante como todos os outros: o Amor Próprio. Do outro lado do rio Yamuna, em cuja margem ele se situa, fica um jardim bem cuidado onde fui assistir ao pôr-do-sol. O Jardim está separado do rio por arame farpado mas tem uma vista deslumbrante para o monumento. Talvez pela hora ou pelo ângulo, aqui eram raros os turistas. Foi então que o descobri, um viajante, um tipo novo que descontraidíssimo saltou o arame farpado e se atreveu nas margens do rio, para simplesmente, à sombra de uma das maravilhas do mundo e com todo o tempo, ler o seu livro e escutar a sua música.
Afinal tinha comigo a fotografia de Amor ambicionada, e como muitas vezes acontece com o Amor, só dela me apercebi mais tarde, já em caminho para outro destino.
India, Setembro2008
O Macaco
O Dono do restaurante era muito simpático e veio-me pedir desculpa pela demora do serviço. Apresentava os braços todos amassados, disse-me que estava doente, que ao contrário dos outros dias não podia cozinhar. Eram o Pai e o Irmão que o faziam por ele, seguindo as suas instruções. Claro que compreendi e perguntei-lhe o que lhe tinha sucedido.
- Foi esta manhã – explicou-me – subi a uma árvore e quando estava lá em cima tive uma discussão com um macaco e caí. Já estive no Hospital mas vou a um médico privado mais logo.
- E porque subiu à árvore ? – perguntei-lhe
- Subo todos os dias a uma árvore: faz muito bem à saúde !
- Talvez não… - comentei apontando para os bracinhos enfaixados
- Não Sir! A culpa não foi da árvore: foi do Macaco.
India, Setembro2008
BatCrónica
Perdida no Rajastão, longe de tudo pela precariedade de acessos, Bundi é uma pequena cidade cujo soberbo e gigantesco palácio dominante do cimo da montanha deslumbra o viajante mais exigente. Tendo sido construído com pedra difícil de esculpir, os Marajás optaram pela pintura como arma decorativa e as paredes estão cobertas por extensos murais deslumbrantes que contam histórias das divindades e dos reinos terrenos.
Quase abandonado pelos turistas e pelos locais, no enorme palácio imperam o silêncio e os morcegos. São centenas e dos grandes. Ao final do dia sobrevoam a vila em bandos para se reagruparem. Os locais desaconselham passeios a horas tardias, e quer se queira quer não, damos connosco a tapar o pescoço para ir jantar e a pedir “Garlic Nan” logo de entrada.
Na verdade, á noite na cidade, entre o Hotel e o restaurante, não se via a morcegada que chega durante o dia a tornar interdita partes do palácio. Mas depois, já no quarto, oiço um ruidinho tipo ratos a chiar. Olho, olho e olho sem destapar o pescoço até que os vejo ! Á contraluz, nos vidros inteligentemente baços do Hotel alinham-se. gordos e grandes. pendurados no bordo exterior da janela que delimita um dos lados da cama. Falam que se desunham.
Renitente, fiz como quando acampei no Masai Mara. Tipo puto, enterrei a cara na almofada, tapei as orelhas e puz-me a contar Gin Tónicos até adormecer.
India, Setembro2008
Mr. Riquexó
Uma vez vi um filme que defendia que todos temos um sócia algures no mundo. É uma teoria. Como alguns sabem eu tenho um irmão gémeo e pensei que no meu caso o mistério já estava resolvido. Foi preciso vir à India para descobrir que este facto não resolve, apenas duplica o fenómeno.
Logo no primeiro dia começaram a chamar-me nas ruas “Mr. Riquexó”. Faziam-no com tal entusiasmo que desde cedo me apercebi que esse tal “Mr. Riquexó” deve ser bastante apreciado. Invariavelmente ofereciam-me boleia nas suas viaturas, e quando pelo caminho se apercebiam que eu não era afinal o “Mr.Riquexó”, pediam-me umas rupias para o gasóleo. Com pena, lá acedia ao pedido.
Com o tempo foram aprendendo o meu nome, mas basta mudar de terra ou povoação e assim que ponho um pé na rua, logo começa o alvoroço da populaça. Eu já lhes aceno como se estivesse em campanha para a casa branca, embora seja menos escurinho e não acredite em saloias hiperactivas.
O fenómeno é tão global que suponho que o Mr.Riquexó seja um tipo importante na televisão nacional. Depois de tanta popularidade, confesso que estou um pouco curioso de como será ele. Além de bonitinho como eu, deve ser Inteligente, o que parece enlouquecer as massas indianas. Estou curioso, não porque ele seja igual a mim (isso eu já experimento desde miúdo) mas porque deve ser porreiro conhecer alguém exactamente igual ao nosso irmão gémeo.
Rajastão
Rajastão significa “terra dos reis”. É também uma terra de turismo, mas não por acaso ou engano. Numa paisagem semi-desértica tropeçamos em cidades vibrantes de cor, onde as gentes marcam cada momento com sorrisos.
Composto por antigas cidades estado, reinos e principados, que enriqueceram com as rotas da seda e afins, todas escondem palácios e fortes não só belos mas muitas vezes gigantescos e irreais.
Os Marajás e o seu poder são ainda muito evidentes. São eles muitas vezes o motivo da presença ou ausência de modernidade, saúde pública ou de alguns serviços que nós europeus consideramos básicos como por exemplo a recolha do lixo.
Jaipur é uma enorme capital em que as casas da cidade velha se pintam de rosa. Em Jodhpur predomina o azul que os locais acreditam refrescar as casas e afastar os mosquitos. Jaisalmer é uma cidade dourada e irreal, esculpida toda em pedra de areia entre muralhas gigantescas. Todos os detalhes, portas cantos e janelas, estão preciosamente trabalhados. Udaipur serviu de cenário a um dos filmes do James Bond e talvez por isso nela encontramos o melhor Gin Tónic da India. Do seu lago central ergue-se em branco pérola o palácio do Marajá, hoje um dos hotéis mais caros no mundo.
Mas as cores, as cores estão nos turbantes e nos Saris, em combinações férteis e decoradas a ouro e prata que nos agarram o olhar a cada instante. Não são cores casuais: as cores escolhidas e a forma como são vestidas obedecem a um código que conta tudo sobre quem as veste. Idade, casada ou não, artesão ou rei, em festa ou de luto, rico ou pobre, a leitura desta forma de expressão é complexa e permanece um privilégio para os de aqui. Para nós, sobra esta forma colorida de falar, que nos chama contra as paredes luminosas das cidades ou nos empurra o olhar na vastidão árida do deserto.
Bikaner
Esta podia ser uma crónica de espanto, abordar as demandas da saúde pública ou o exotismo das expressões de fé. A verdade é que bastaram umas semanas de India para que, entrar num templo em que ratos são tratados como deuses, me parecer normalíssimo.
Malgas de leite são colocadas à disposição de milhares de ratos que aqui habitam, e que aqui são sagrados. Banqueteiam-se, juntamente com os seus parasitas cutâneos, sendo ainda alvo da ternura dos seus crentes que os permeiam com festinhas e ternuras.
Há varias malgas e ofertas, pelo que se deslocam de forma agitada, indecisos entre que festim se dedicarem. Pelo caminho, a rataria atravessa os nossos pés mandatóriamente descalços, já de si pesados pela constatação da sujidade no mármore branco do chão.
É uma experiência e tanto mas surpreendentemente, tal como as manadas de vacas nas cidades, estes ratos já sabem que são sagrados e se nos olham, é com condescendência e amizade.
Caminhei por ali a fotografar e a conversar com os crentes. Percebi neste dia que já nada me espanta na India. Melhor, que depois da India, já nada me espanta e ponto.
O Atentado
Quando as bombas explodiram eu estava a dormir não muito longe, mas não dei por nada. Conaugth Place, onde ocorreram os atentados, é um local central, recheado de restaurantes e lojas onde muitos locais e turistas passeiam ao fim da tarde.
Muitos hotéis ficam nas ruas que irradiam deste centro da cidade. O meu era um deles. Nessa tarde e o cansaço atirou-me para o meu quarto onde me deixei adormecer sob o ar condicionado, afastado do constante barulho da rua.
Quando acordei ligo a televisão para entreter os ouvidos durante o duche e apercebo-me do que se passa a uma centena de metros dali. Não tive nem medo nem pânico. Senti sim uma enorme decepção.
Quando se viaja o mundo fica mais bonito, somos forçados a confiar em estranhos, a acreditar na bondade e seriedade das pessoas. Quando se viaja testemunhamos diariamente, sob feições e costumes longínquos, valores que de tão essenciais nos aproximam. Quando viajo, aquilo que experimento embala-me num optimismo que me faz acreditar na possibilidade de um Futuro globalmente bom.
Estas bombas ali à minha porta foram como um murro inesperado de um amigo. Uma contradição a tudo o que vos tenho descrito e com a qual não consegui lidar.
Pela televisão percebi que nada tinha a ajudar. Pensei deslocar-me lá para absorver algo com que escrever uma crónica, mas não fui. Bastava descer a rua. Faltou-me a coragem para enfrentar esse lado triste. Invadiu-me a desilusão e sem sono para dormir procurei companhia num bar ali perto. Sem saber o que pensar ou escrever, espantado com a forma como me tento recusar a aceitar esta parte da minha viagem, bebo e organizo mentalmente a saída da cidade.
Uma parte de mim ainda me pede para esquecer o assunto, para não sujar estas crónicas com esta história. Mas por muito estagnante que seja uma desilusão, a verdade é sempre mais importante. E eu descobri que as pessoas se matam umas às outras ao meu lado e eu não posso, ou não sei, fazer mais do que beber um Gin Tónico e seguir viagem.
Posso tentar defender-me que precisei partir para não deixar de acreditar, disfarçar-me que todos nós nos tornámos insensíveis aos atentados que preenchem os telejornais. Mas este foi ao meu lado e eu tentei contorná-lo, apesar de ser como muitos outros uma realidade crescente no mundo que me propus conhecer.
Pesando tudo isto, não me sobra autoridade para escrever o que seja sobre os atentados. Mas posso escrever sobre uma coisa: a cobardia de os ignorar.
Sabor da Terra
- Quem é o teu Guru ? – Perguntaram-me logo de início da minha viagem na India. A pergunta ficou-me vincada na memória. De facto não tenho nenhum. Um Guru é uma espécie de “Personal Trainner” do nosso lado espiritual.
Por toda a India o bem-estar espiritual é uma procura incessante. Uma obsessão, uma demanda global para a qual uma enorme variedade de cultos e tradições oferece uma multiplicidade de respostas fascinantes. Aqui não somos seres humanos com uma dimensão espiritual: somos seres espirituais com uma dimensão humana.
A palavra Guru significa: aquele que oferece a luz. Não somos nós que escolhemos um Guru, mas ele que nos escolhe a nós. Como um Guia, um Guru prescreve conselhos, acções e atitudes. Quando sentimos que as mesmas fazem sentido, e que de facto melhoramos através delas, sabemos que o encontrámos.
Karn faz parte da geração “New India” , tem um MBA e trabalha num Banco Internacional. Fez 29 anos e diz-me que encontrou o seu Guru cerca de três anos antes. Peço-lhe um exemplo pragmático da influência positiva deste guia e conta-me a história que passo a descrever.
A avó de Karn, que cuidou dele toda a Infância, estava a morrer já à alguns meses. Vivia em absoluto sofrimento com um cancro terminal. Todos se questionavam porque a sua alma se recusava a partir, a abandonar aquele corpo e a regressar à eternidade.
Os Hindus acreditam que quando isso acontece, é porque algo por realizar no seu Karma ainda não sucedeu. Karn, angustiado pela condição da avó, foi ter com o seu Guru. Este, depois de o escutar pressentiu que talvez o que se estava a passar era que a avó, a sua alma, não queria nem podia partir longe da sua terra natal. Mandaram vir terra da cidade de origem da família, e foi ao sentir o sabor da terra nas mãos, que ela finalmente partiu.
O Maraja Panasca
Desta vez não perdi tempo. Nem foi preciso subir à montanha (Crónicas do Irão).Assim que me ofereceu o gelado que parecia um rato Mickey, perguntei-lhe:
- Faz Imitações da Madona ?
Foi melhor assim. Poupou-se tempo e mal entendidos. Além de fazer imitações da Madona, o rapaz era o professor de Inglês do Marajá, não de um Marajá qualquer mas do Marajá Panasca, ou Pink Prince, também conhecido pela doida do turbante ou a maluca do Rajastão
Este personagem famoso dos telejornais indianos resolveu anunciar a toda a gente, Mãe e esposa incluídas, em conferência de imprensa ,que afinal gostava de homens. Num país conservador como a India, caiu o Carmo e a Trindade, ou melhor, o Tal e o Mahal. Ocorreram revoltas nas ruas do reino e fez-se muito barulho em todo o lado.
Rapidamente no entanto, os média e o poder político perceberam que tinham no Marajá um Icon nacional que permanecia em vazio neste sub-continente. Inicialmente expulso do palácio pela rainha mãe, foi rapidamente reposto no seu sítio.
- A Queen agora sou eu! – terá dito nesse momento solene.
Foi com entusiasmo que o professor de Ingles me contou tudo isto. Explicou-me o quanto agora o Marajá é famoso e de como até já foi entrevistado pela Oprah Winfred.
O Ser humano é assim, às vezes somos um bocado básicos mas aquela história picou-me: se o Marajá deu uma entrevista para uma tipa que vende almofadas eléctricas para divorciadas e receitas de sumos para as dores de cotovelo, tem que dar uma para o Jornal de Alcochete. Fiz o Convite.
Três dias depois chegava por email a resposta à carta formal endereçada ao Marajá pela mão do Professor de Inglês. Duas semanas depois, estava em Bombaim para o maior furo jornalístico amador emviagem.
No Bar do Hotel apropriadamente denominado por Taj Palace, aguardo a chegada do Marajá na companhia do meu amigo Gin Tónico. Visto a tal roupa melhorzinha que prescrevi no início desta aventura nas ”dicas emviagem”. A camisa e as calças foram engomadinhas de fresco esta manhã e foram-me entregues prontas a darem aquele ar aborrecido mas eficiente a que chamam Business Casual.
Enquanto converso com o meu Gin , o companheiro mais fiel nesta viagem, pergunto-me se o Marajá vai mesmo aparecer. E se aparecer, virá informal ou com secretários e advogados? O que quer que aconteça a seguir, mesmo que seja uma bronca descomunal, vai ser memorável. Não vale a pena pensar muito. Se a Oprah conseguiu, eu também consigo.
Mais um golo e olho o relógio. Faltam 15 minutos para a hora combinada. O perigo, o grande perigo está identificado: o homem pergunta-me onde é Alcochete e tenho que lhe explicar que para os padrões Indianos é um aldeola, mais pequena que o Hotel onde estamos. Deixem-me lembrar-vos que na India as cidades, cada uma, tem para cima de 10 milhões de habitantes. Basta visitar meia dúzia de palácios, ver algumas ilustrações, conhecer uma ou outra história, para saber que os Marajás quando se zangam são lixados!
Decidi por estratégia, caso a conversa se encaminhe para esse assunto, de a encaminhar para as touradas. Nada de referir números e demografias em específico. Falo-lhe dos forcados e tal e espero com isso desviar o imaginário do Marajá. Como aqui as vacas são sagradas, será fácil depois reconduzir a conversa para a India.
- Meto-me em cada tourada! – penso antes de beber o último trago. Está na Hora. Acordo todas as minhas competências profissionais enquanto me dirijo para o Lobby e digo a mim próprio já num Inglês formal: Let´s do it.
A Miuda do Cafe
Na India somos constantemente bombardeados com perguntas. De onde somos, nome, idade, estado civil, girlfriend ou não, religião, emprego, empresa, salário, quantas semanas de férias, pratos tradicionais, hobbies, tamanho de Portugal, PIB Nacional, número de habitantes, quantos MBAs, destino, hotel, preço do hotel, marca do telemóvel, etc.
Talvez por isso, ao cumprimentar a empregada do Café pelo coração desenhado no meu Capucinno, não estranhei que o meu comentário fosse respondido com a pergunta de onde era e como me chamava. Estranhei sim, quando subitamente, me pediu para esperar um momento, pegou no Capucinno e o levou de volta para traz do balcão.
Quando regressou, vinha ainda mais sorridente:
- That´s you Sir !
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India, New York, Alcochete
Um dos nossos males é a timidez. A timidez lusitana. Vem nos mesmos genes que o Fado e o Bacalhau, só que ao contrário desses, lixa-nos quase sempre. Sempre encontrei pessoas infelizes por timidez e que perante esse facto, encolhem os ombros, dizem que são assim e descorrem uma lista de dificuldades e argumentos.
Não é um mal exclusivamente nacional, mas afecta-nos em muito. Ainda há muitas coisas em Portugal que não “ficam bem” e demasiados submissos à ditadura dessas duas palavras. Eu próprio à muito me apercebi que essa genética timidez não me ajuda em nada e de como até prejudica quando se trata de sobreviver emviagem. Tento ultrapassar-me nesse ponto, no entanto, como em tudo, encontramos sempre alguém melhor que nós e que nos ensina a superar-nos.
- Eu sei que isto vai parecer muito estranho, mas eu não falo com um Ocidental à 3 meses e queria convida-lo para jantar. – Claro que aceitei. Tratava-se de Geena, uma jornalista de Nova York que interrompeu a sua carreira 6 meses para trabalhar numa ONG aqui na India. É voluntária numa organização focada no apoio às jovens que são oferecidas ainda crianças aos deuses nos templos, e depois entregues pelo templo a um protector. O destino destas mulheres fica traçado e envolve quase sempre a prostituição.
A forma como a sociedade está organizada faz com que ter uma filha seja de facto um inconveniente e um filho varão uma bênção. Na India dos nossos dias, é proibido por lei informar os pais sobre o sexo do bebé como forma de evitar os abortos. O infanticídio de recém-nascidos que sejam mulheres, ou deficientes ou simplesmente não desejados é uma realidade sobretudo rural que não foi ainda erradicada.
Geena esteve os últimos meses a trabalhar com esta ONG nos meios rurais. É uma ONG 100% Indiana e Geena a única voluntária ocidental. Aproveitou a folga de uns dias feriados e festivos para conhecer Hampi. Instalou-se, procurou um restaurante e foi lá que me encontrou a decifrar o menu.
Entre a India e Nova York, a sua ONG e os Veterinários sem Fronteiras, a minha viagem e as eleições nos Estados Unidos, templos Hindus e Alcochete, o jantar não podia ter sido mais cosmopolita e animado.
Eu sei que não fica nada bem convidar estranhos para jantar assim sem mais nem menos, mas depois de o viver na primeira pessoa fiquei convencido de que vale a pena experimentar.
Em casa do Vasco da Gama
Os portugueses foram os primeiros ocidentais a chegar à India e os últimos a deixá-la, quase cinco séculos depois. Um dos governadores nomeados para Goa, capital do Oriente, foi Vasco da Gama, que regressou assim 30 anos depois à India.
A Casa onde Vasco da Gama viveu e morreu quando esteve em Cochim permanece privada. A família da avó Filomena que aí reside, aluga dois dos seus quartos. Os quartos têm acesso a uma sala comum de onde se passa por uma enorme porta de madeira ao alpendre que desce em escadaria ampla e limpa para a rua verdejante.
A casa é de um branco puro ,sendo que as portadas estão pintadas de azul escuro. Nos quartos e na sala entulham-se móveis antigos e gastos. Curiosidades e quadros envelhecidos enchem as paredes. As camas são de dossel e no tecto ventoinhas fazem o papel reservado ao ar condicionado dos hotéis circundantes.
Durmo aqui. Não me perguntem porquê, mas tudo, da luz que entra na janela até o cheiro da madeira, me aproxima de casa, me aproxima de nós. Meses depois de partir, milhares de quilómetros depois, entre outras gentes, climas e religiões, continuo a encontrar-nos. Sinto-me verdadeiramente parte de um povo extraordinário. Não sei que medos ou preconceitos nos adormeceram entretanto, mas cabe a todos nós extingui-los.
Pergunto-me porque fazemos Erasmus na Europa e não nas Indias, Africa e Brasil. Não sou de certeza o primeiro nem o único que ao vir aqui sente que a cada passo dado cresce a vontade de voltar a estudar a história do nosso país. Quantos portugueses encontro nas ruas de Cochim? Nem um. O filho da Dona Filomena mostra-me os registos da casa. O ultimo português que aqui dormiu foi à dois anos e vive em Amesterdão. E para os que sempre argumentam com o discurso salazarista do sermos pobrezinhos, recordo que uma passagem para a India custa tanto como umas férias na Serra Nevada, estância de ski que tantos Tugas invadem no carnaval. E quanto custa dormir na casa do Vasco? 12 euros por quarto por noite.
Eu sei que há muita gente que não pode, mas também há muita que pode. E aos últimos digo para deixarem-se de tretas e virem até aqui para que os vossos putos cresçam, não agarrados a um passado bafiento e moralista, mas a perceber o que nós como povo somos capazes de fazer quando nos empenhamos seriamente em o conseguir. Num mundo competitivo e global, a nossa identidade individual é um bem essencial, e o melhor da nossa identidade está aqui.
Não vão ser nem a televisão, nem os skis, nem o pato Donald que lhes vão ensinar isso.
O Worksop do Monje
- A Felicidade depende da capacidade de lidar com as provocações- explica o formador, um monge Hare-Krisnha, como aqueles que cantam no rossio a pedir esmola.
Sou convidado assistir à primeira aula de um curso de Self-Management promovido pelo templo deste culto na cidade de Pune. Fui simplesmente recrutado no comboio, e sendo o tempo o meu privilégio e a curiosidade um vício, abandonei os meus planos imediatos e aceitei. Ao chegar a Pune, saltei do Comboio.
Se há uns meses me perguntassem se me imaginava a cantar Hare Krishnas de enfiada, claro que diria que não. Mas naquele dia lá estava eu animado a tentar não me enganar na letra, que apesar de simples é repetitiva e nos baralha.
Tudo começou com uma discussão religiosa e um convite para conhecer o templo. Logo me ajudaram a encontrar onde dormir, me ofereceram de comer e depois convidaram-me para o tal workshop organizado num condomínio fechado da cidade. Lá fui com o monge num excelente Toyota novinho em folha. Ajudei a montar os microfones e sentei-me a cantar os Hare krishnas com a endinheirada assistência.
O Monge formador, de nome Balshi, era engenheiro de automóveis no Império industrial Tata. Depois sentiu-se iluminado e ingressou no templo. Tráz consigo vícios do ambiente corporate onde se desenvolveu profissionalmente. Mas são bons vícios. Depois de cinco anos em que eu próprio trabalhei numa multinacional americana que privilegiava as acções de formação, a qualidade deste formador igualava ou superava os melhores. É certo que começava com os Harés-Krishnas…, mas por outro lado, não haviam palmas nem exercícios de descontração infantiloides.
O workshop é sobre Self-Management e penso que uma forma inteligente de recrutar seguidores para o culto entre os abastados da cidade. Como em muitos outros cultos, os fieis decidem por “livre” vontade doar 10%, 20%,50% do seu salário. A linguagem e os exemplos denotam que esta acção está direccionada a um “mercado” muito específico.
De todos os conceitos abordados, apenas um me surpreendeu. O monge juntava aos já gastos Quociente Intelectual, Capacidade Física e Inteligência Emocional, uma nova variável: o Quociente Espiritual. Aqui não se aventurava em teologias. Para ele carácter é o que fazemos quando nunca ninguém nos está a ver. Como esta definição implica a ausência de um observador, implica também a incapacidade de uma empresa se aperceber na realidade qual o carácter dos seus funcionários. Uma empresa que não consegue avaliar o carácter dos seus funcionários dirige-se para um futuro triste.
A partir deste raciocínio, o monge defende que alguém com mais espiritualidade, porque subentende a crença na existência de valores superiores e de uma força cósmica que nos observa, terá mais carácter.
Fica por responder o facto de que a verdadeira espiritualidade, é aquela que vivemos quando ninguém nos observa. Fiz bem em ter saltado do comboio.
New India
Parte fundamental do Boom económico da India na década passada assentou no desenvolvimento de novas tecnologias e no outssorcing de serviços por parte de companhias ocidentais.
Nas cidades prósperas, na sua maioria no Sul, prolifera a chamada “New India”, jovens graduados na casa dos 20 e 30 anos, que podem comprar casa, carro ou mota, vestir de forma ocidental, frequentar cinemas com ar condicionado e jantar sábado à noite no Macdonalds.
Os Saris e fatos tradicionais guardam para os dias de festa, a progressão económica é o principal motor de vida, e embora continuem a ser os pais a decidirem os casamentos , a virgindade deixou de ser um objectivo. Pelo contrário, há que aproveitar e experimentar clandestinamente nos escassos anos de liberdade em que trabalham longe da sua origem e ainda não foram obrigados a ceder ao mandatório e compulsivo matrimónio.
Acreditam tanto no Karma como na importância da marca do telemóvel. Têm uma velha estátua do deus favorito a abençoar a sala do novo apartamento. Têm sobretudo todos os dias, suficientes mendigos a abandonados à morte do outro lado da janela do automóvel para aceitarem condições de trabalho bem menos humanas que as dos seus clientes nos Estados Unidos.
Não é um conceito novo para mim. Por experiência própria e de muitos outros que conheço, em Portugal trabalha-se muito. São varias as Multinacionais que dispõe na nossa terra de uma massa de gente empenhada, criativa, barata e agradecida. Gente que trabalha fins de semana seguidos, excede todas as semanas os horários contratados e que abdica de parte dos seus direitos. O motivo aqui não são os mortos de fome na estrada para o emprego, mas a fome de uma segurança financeira que outros empregos simplesmente não oferecem. Aqueles que como eu trabalharam numa multinacional sabem, nem que seja pelos horários dos emails e reuniões, que em Portugal se trabalha mais.
A recente recessão global assusta a New India. A sua revolução económica não assenta como no caso da China (o eterno rival) na manufactura de bens mas na prestação de serviços ao exterior. E se na China se ensina agora massivamente Inglês, na India a falta de energia obriga a apagões constantes e diários em quase todas as cidades.
Mas mesmo com todos estes enormes desafios, a baixa literacia permite que a India em vez de se reinventar, se afunde em crescentes problemas religiosos entre fundamentalismos muçulmanos e hindus, entre estados ricos do sul e pobres do norte, entre um estagnante conservadorismo e uns media demasiado sensacionalistas e estigmatizantes.
É difícil ser optimista para o futuro deste quinto da população mundial, é difícil imaginar como será viver e construir um futuro aqui, mas se há uma coisa que a India me ensinou e que desejava para o nosso país, é a sua constante e insuperável capacidade de nos surpreender.
Praia da Chegada
Imaginem. Imaginem por uns minutos que partiram de Portugal com destino incerto. Provavelmente com motivos para vós próprios desconhecidos e sob o comando de um jovem nobre de 22 anos sem história ou família de relevo.
Imaginem-vos em meses e meses de mar e mar e sol e sal. A água não é fresca, é pouca e racionada. Falta comida. A costa que se avista é estranha e perigosa. As intempéries pontuam esta viagem em que já grande parte dos vossos companheiros pereceram. O calor sufoca e rasga-vos a pele. Suam a fé e o medo que vos sobram.
Imaginem. Imaginem meses e meses de mar e mar e sol e sal, pontuados por guerras contra gentes e armas e epidemias desconhecidas. Nem os naufrágios, nem as riquezas já acumuladas, as terras e os barcos saqueados são suficientes para os vossos capitães que insistem em prosseguir, pior, em se deixar conduzir por um negro capturado em Melinde em direcção ao que vocês acreditam ser o abismo, o fim dos mundos.
Meses e meses de mar e mar e sol e sal e nada. Solidão, luta e sobrevivência em contínuo. E um dia chegam. Á vossa frente uma praia imensa de areia clara, as palmeiras que se debruçam para vos receber, o mar quente e finalmente calmo que se estende e termina aqui.
Mesmo sem certezas de regresso e com certezas de mais e maiores dificuldades, a missão está cumprida. O Mundo mudou nesse dia de forma irrecuperável. A civilização renasceu: tudo voltava a ser possível. Estavam lá apenas um punhado de homens. E eram nossos.
É possível visitar hoje esta praia. Continua inacreditavelmente ampla, vazia, de areias claras e limpas e imensas, coberta de palmeiras que saudosamente insistem em se debruçar sobre o mar. Se caminharmos na areia em direcção a terra, encontramos quase escondidas na vegetação algumas casas de pescadores que saiem a nos cumprimentar. Não há mais ninguém, mais nada do que isso.
Os pescadores mal falam inglês, mas as palavras “Vasco da Gama” são reconhecidas e levam-nos a um pilar onde uma placa assinala que foi aqui que a frota portuguesa chegou em 1498. É um monumentos esquecido entre a vegetação e os muros das casas vizinhas. Mas não me importa. O verdadeiro monumento é a praia, idílica e esquecida, onde pescadores nos apontam as águias pesqueiras a caçar bem perto. Mostram-me também que na rocha que delimita a extremidade da praia há um templo hindu. Li depois que tem mais de 8 séculos este pequeno templo sobre o mar. Foram estes os Deuses que testemunharam a chegada, a vossa chegada.
O Mundo mudou aqui e parece que já ninguém se lembra. Melhor assim. Sem ninguém por perto é possível tirar a roupa, dar umas braçadas e ver a praia vazia do mar. Se imaginarem tudo o que vos pedi, compreendem a enorme e profunda alegria que senti.
Festa Portuguesa
Chega de Thalis, Massalas, Dosas e Biryanis. Chega de Dhals,Rotis,Chappatis e Lassis. Para começar uns Gins Tónicos (um por mim e outro pelo Obama) e uns camarões em manteiga e alho. Depois, já com Douro, um chouriço frito e pão a sério. Segue-se um carnívoro bife em vinha de alhos e para terminar, um prazer insuspeito e ainda desconhecido de grande parte da humanidade: um pudim flan. Esta última decisão foi a mais difícil, debatendo-me a alma entre o Pudim e a Mousse de chocolate. Ganhou o Pudim apenas porque foi o primeiro e já não havia espaço para mais. E sim. No fim, um café.
Os sabores não eram exactamente os mesmos, mas as Doce e o Roberto Leal na aparelhagem completaram as diferenças.
Não, não estou a sonhar. Estou em Goa. Entre Hindus e Ganzas sobevive um único restaurante tuga que entendi ser paragem obrigatória para celebrar 3 meses de aventuras. E como receio que estes três meses sejam apenas uma amostra do que me espera, ainda mandei vir uma sagres para me iluminar o caminho de volta ao Hotel.
A Cabana
A sul de Goa aluguei uma cabana junto ao mar. O restaurante ao lado é gerido por um tibetano exilado que também aluga as cabanas. Na esplanada, suportada por árvores, janto junto ao mar, a ouvi-lo à luz das velas e da fraca iluminação que decora o local. Não estou no paraíso, mas é parecido.
Dizem que a época ainda não começou e que por isso tudo permanece calmo. Eu pelo meu lado, desde Junho que continuo no Verão. Só isso por si é delicioso. Ainda não chegou o jantar e já me imagino a acordar de manhã ao som das ondas . Vou levantar-me e sair da cabana a mergulhar logo cedinho. Depois sento-me aqui com o meu amigo Gin, novamente a ler e a escrever. Paro apenas para mais uma vez nadar ou experimentar um peixe fresco que os pescadores trazem à praia.
Acho que sou feito de mar.
emviagem
Portugal
emviagem