emviagem.net
Todos os Direitos Reservados / All rights reserved
emviagem
Portugal
emviagem
Esta foi a crónica que demorou mais tempo a escrever. A mais difícil. O título explica porquê. Esta é o fim. Como se de repente eu perdesse a voz.
Significa que o melhor tempo da minha vida terminou. A grande Aventura está concluída. Ao contrário das conclusões de outras aventuras, esta é mais difícil, mais confusa. Durante meses e meses a que saborosamente perdi a conta, naveguei pelo mundo, senhor de cada minuto, de cada passo. Dia após dia em plena liberdade, devotado a concretizar sonhos, a conhecer gente nova e reveladora, a ampliar-me, a conhecer. E, quase de repente, quase cedo de mais, estou novamente no mesmo sítio.
O que me confunde ao chegar a Portugal, o que percebo ao caminhar junto ao Tejo, é que a Volta ao Mundo é a única viagem de onde nunca se regressa. O único bilhete de avião que não é de ida-e-volta. Partimos numa direcção e, por cuincidência, o ponto de chegada é o mesmo da partida. Mas tudo mudou. Principalmente Eu.
Metade das notícias do mundo já não me são alheias. Relembram-me conversas, lugares e pessoas. Os factos dão agora lugares a emoções. As vitimas e os vencedores passaram de números a nomes.
As amizades que fiz e com quem me mantenho em contacto chamam-me para partir novamente ao seu encontro. O Inverno em Lisboa, a formalidade ocidental, a ausência de novidades que nos espera sempre em casa, empurram-me para fora. E, ao mesmo tempo, o cansaço de viver de malas feitas, a necessidade do calor dos amigos de sempre, de todos cuja ausência estranhei, pedem-me para ficar.
Mas antes de me decidir, antes de tudo, antes de me readaptar ao meu mundo original ou retomar os caminhos do desconhecido, há uma decisão que me empenho em conseguir. É uma decisão que nasceu despercebida e cresceu devagarinho.
Em Portugal ou onde seja, não posso depois desta viagem prossseguir como mero espectador do mundo e das suas injustiças. Não posso sublinhar os erros e as diferenças e aceitar tudo depois como factos independentes da minha vontade. Depois das pessoas extraordinárias que conheci pelo mundo, e sobre quem aqui escrevi, perdi argumentos para ficar quieto e aceitar tudo de braços cruzados ou, pior, com apenas uma caneta na mão.
É-me impossível ser apenas espectador, regressar a uma vida profissional comandada pela ganância de accionistas anónimos de uma qualquer grande empresa. Antes, nem que seja por respeito aos que me receberam e abraçaram, vou oferecer o que sei e aprendi do nosso lado do mundo.
Por ironia dos Deuses (não foi escolha minha) essa vontade tornou-se possível no único continente que não visitei nesta volta pelo mundo: Africa.
É do Gurúe, no fim do mundo conhecido, canto isolado no interior de Moçambique, que escrevo estas Palavras, esta última crónica. Aqui vou trabalhar um ano como professor voluntário. Às vezes de Portugal perguntam-me porque estou eu aqui. E eu lembro-me das palavras de Alicia na Guatemala. Esta é também a minha gente.
Talvez seja essa a grande mudança: o meu mundo perdeu todas as fronteiras. As dos mapas,as dos outros, e as minhas.

emviagem
Portugal
emviagem